O papa Leão XIV reconheceu as virtudes heroicas do sacerdote belga Júlio Maria De Lombaerde, concedendo a ele o título de Venerável, uma das etapas mais importantes do processo de beatificação na Igreja Católica. Com a decisão, a causa avança para a fase em que será analisado um eventual milagre atribuído à intercessão do religioso.
Pouco conhecida no Rio Grande do Norte, a trajetória do missionário tem uma ligação direta com o estado. Antes de se tornar um dos mais importantes evangelizadores católicos do Brasil, fundador de três congregações religiosas e autor de dezenas de livros, Padre Júlio Maria passou cerca de três meses em Natal e em São Gonçalo do Amarante, entre outubro de 1912 e janeiro de 1913. Foi nesse período que aprendeu português, conheceu os costumes brasileiros e realizou suas primeiras atividades pastorais no país.
Nascido em 7 de janeiro de 1878, em Waregem, na Bélgica, Júlio Emílio Alberto De Lombaerde ingressou na Congregação dos Missionários da Sagrada Família e foi enviado ao Brasil em 1912, atendendo ao pedido do então bispo de Santarém, Dom Amando Bahlmann, que buscava reforçar o trabalho missionário na Amazônia diante da escassez de sacerdotes.
A viagem começou em 25 de setembro de 1912, quando embarcou no porto de Antuérpia. Após desembarcar em Recife, em 15 de outubro, seguiu para Natal e depois para São Gonçalo do Amarante, onde permaneceu sob os cuidados do padre Luiz Bechold, também missionário da Congregação da Sagrada Família e vigário da paróquia local.
Durante aproximadamente três meses, dedicou-se ao estudo da língua portuguesa e ao conhecimento dos hábitos da população brasileira. O objetivo era preparar-se para o trabalho missionário que desenvolveria na região Norte. Já no Natal de 1912, dominava o idioma o suficiente para celebrar missas e percorrer comunidades rurais a cavalo, auxiliando nas atividades pastorais da paróquia.
Foi também no Rio Grande do Norte que registrou suas primeiras impressões sobre o Brasil em seu diário missionário. Impressionado pela religiosidade popular, escreveu que o brasileiro possuía "um fundo de fé sincera", embora conhecesse pouco a doutrina católica. Em outra passagem, definiu o povo como "uma fagulha de fé viva sob as cinzas", expressão que se tornaria uma das mais conhecidas de seus escritos.
Os diários também revelam o encantamento do missionário com a natureza tropical. Em tom bem-humorado, escreveu que no Brasil parecia haver árvores que produziam pão, açúcar, caldo de cana e até leite, brincando que só faltavam árvores que dessem presunto e ovos. Ao final do relato, resumiu a impressão com a frase "Viva o Brasil, país dos sonhos".
Em janeiro de 1913, deixou o Rio Grande do Norte e seguiu para Macapá, onde iniciou efetivamente sua missão na Amazônia. Ao longo dos 32 anos seguintes, divididos entre as regiões Norte, Nordeste e Minas Gerais, destacou-se como pregador, catequista, escritor e fundador de três congregações religiosas. Também criou escolas, patronatos, hospitais e outras obras sociais voltadas à população mais vulnerável.
Naturalizado brasileiro, Padre Júlio Maria morreu em 24 de dezembro de 1944, aos 66 anos, em um acidente automobilístico próximo ao atual município de Alto Jequitibá, em Minas Gerais. Mais de um século depois de sua passagem pelo Rio Grande do Norte, a Igreja Católica reconhece oficialmente suas virtudes heroicas, passo que o aproxima da beatificação.