Depois de sete anos de queda contínua das mortes violentas, o Rio Grande do Norte voltou a registrar aumento nos homicídios em grande parte pela disputa de territórios entre facções criminosas. A 20ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostra que o Estado teve crescimento de 19,6% nas Mortes Violentas Intencionais (MVI) em 2025, o maior percentual entre todas as unidades da Federação. O dado contrasta com o cenário nacional, onde a violência letal caiu 8,2% e atingiu o menor patamar desde o início da série histórica do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2012.
Ele crescimento em 2025 interrompe uma trajetória de queda que vinha desde a crise da segurança de 2017 e 2018, quando a guerra entre o PCC e o Sindicato do Crime culminou no massacre de Alcaçuz, ataques coordenados e uma explosão no número de homicídios A partir dali, o estado conseguiu reduzir continuamente os homicídios. O Anuário mostra que essa tendência positiva sofreu uma inflexão.
Entre 2018 e 2025, o Estado reduziu pela metade o número de mortes violentas intencionais, passando de 1.788 para 873 vítimas por ano, uma queda de 51%. Como consequência, o Rio Grande do Norte deixou de aparecer entre os estados que concentravam as cidades mais violentas do país. Hoje, nenhum município potiguar integra a lista dos dez mais violentos do Brasil.
O aumento registrado em 2025, no entanto, indica que esse ciclo de redução perdeu força. O próprio relatório aponta que a violência permanece concentrada nas regiões Norte e Nordeste devido à expansão das organizações criminosas e à disputa por territórios e mercados ilícitos e o Rio Grande do Norte está entre os 10 Estados com maiores índices de violência.
No caso potiguar, esse movimento tem se concentrado principalmente no Oeste do Estado, na faixa de divisa com o Ceará. A região passou a registrar maior pressão das facções criminosas, que disputam corredores estratégicos para o tráfico de drogas e outras atividades ilegais. Especialistas em segurança pública já apontavam, ao longo dos últimos anos, que esse deslocamento dos conflitos poderia provocar novo crescimento dos homicídios.
Apesar da piora nesse indicador, os dados mostram que a criminalidade não evoluiu de forma homogênea. Enquanto as mortes violentas voltaram a crescer, outros crimes apresentaram redução significativa, indicando que as políticas de segurança produziram resultados diferentes conforme o tipo de delito.
Em nota, a Secretaria de Estado da Segurança Pública e da Defesa Social (Sesed) afirma que o aumento registrado em 2025 deve ser analisado dentro de uma série histórica mais ampla. Segundo a pasta, o Rio Grande do Norte permanece entre os estados que mais reduziram a violência letal na última década graças aos investimentos em inteligência, integração entre as forças de segurança, tecnologia e fortalecimento das investigações.
A secretaria também cita dados do Atlas da Violência que colocaram o Estado entre aqueles que mais reduziram mortes violentas entre 2023 e 2024 e afirma que os indicadores criminais sofrem influência direta da atuação das organizações criminosas e dos conflitos entre facções, fenômeno observado em diversas unidades da Federação.
Onde a violência está concentrada
Os dados do Anuário mostram que, embora o Rio Grande do Norte tenha registrado aumento nas mortes violentas, nenhuma cidade do Estado aparece entre as dez mais violentas do país. Entre os municípios potiguares com mais de 100 mil habitantes, São Gonçalo do Amarante apresenta a maior taxa de Mortes Violentas Intencionais, com 40,2 casos por 100 mil habitantes. Em seguida aparecem Mossoró, com 31,6; Natal, com 24; e Parnamirim, com 18 mortes por 100 mil habitantes.
A distribuição dos indicadores reforça que o crescimento da violência não ocorre de forma uniforme em todo o Estado. Enquanto a Região Metropolitana mantém índices inferiores aos registrados em anos anteriores, a pressão exercida pelas organizações criminosas tem se deslocado para municípios do Oeste potiguar.
O que mostram os outros indicadores do Anuário
Roubo e furto de celulares
O Rio Grande do Norte registrou queda de 22,1% nos roubos e furtos de celulares em 2025, uma das maiores reduções do país.
Violência contra adolescentes
As vítimas entre 14 e 17 anos aumentaram 8%, passando de 190 para 202 casos.
Violência contra crianças
Entre crianças de 10 a 13 anos houve redução de 20,7%, com os registros caindo de 73 para 57 vítimas.
Sistema prisional
A população carcerária passou de 12.663 para 14.234 pessoas entre 2024 e 2025, ampliando a pressão sobre o sistema penitenciário estadual. Segundo o Anuário, o número de vagas disponíveis também diminuiu no período.
Brasil
Enquanto o RN registrou a maior alta percentual nas mortes violentas, o país alcançou o menor índice desde 2012. Foram 40.775 mortes violentas em 2025, com taxa de 19,1 casos por 100 mil habitantes, uma redução de 8,2% em relação ao ano anterior.