O Rio Grande do Norte voltou a aparecer nos planos ferroviários do governo federal com a inclusão do trecho Natal-Macau na carteira de projetos apresentada pelo Ministério dos Transportes a investidores na última semana. O corredor potiguar integra o programa de Ferrovias Inteligentes, iniciativa voltada à recuperação de linhas ociosas ou abandonadas por meio da participação da iniciativa privada.
Com 241 quilômetros de extensão, a antiga ferrovia ligando Natal a Macau é uma das 17 oportunidades identificadas pelo governo federal para testar novos modelos de exploração ferroviária. A proposta prevê a abertura de chamamentos públicos para que empresas apresentem projetos de revitalização e operação dos trechos.
Apesar de recolocar o estado no debate nacional sobre transporte ferroviário, especialistas observam que a viabilidade econômica do corredor potiguar ainda representa um desafio maior do que o enfrentado por alguns dos projetos apresentados em outros estados do Nordeste.
O trecho Natal-Macau atravessa regiões importantes para a produção de sal, energia eólica e atividades ligadas ao setor de petróleo em terra, mas não possui, atualmente, a mesma densidade de cargas observada em corredores ferroviários próximos a grandes polos industriais ou portuários.
Na avaliação do próprio Ministério dos Transportes, os projetos serão submetidos ao interesse do mercado. Somente aqueles capazes de atrair investidores e demonstrar sustentabilidade econômica deverão avançar para etapas posteriores.
Entre os trechos nordestinos apresentados, um dos que mais chamam atenção pelo potencial econômico é a ligação Alagoinhas-Propriá, com 427 quilômetros, conectando áreas da Bahia e de Sergipe. O corredor corta uma região de forte atividade agroindustrial e possui localização estratégica por estar próximo de polos industriais, áreas de produção agrícola e da infraestrutura portuária baiana.
Outro projeto considerado promissor é o trem regional entre Salvador e Feira de Santana. Com 107 quilômetros de extensão, a ligação conecta as duas maiores cidades da Bahia e atenderia uma região metropolitana ampliada com milhões de habitantes. O eixo concentra intenso fluxo diário de trabalhadores, estudantes e atividades econômicas, cenário que tende a favorecer a demanda por transporte ferroviário de passageiros.
Outro projeto visto com potencial de viabilidade é a ligação ferroviária entre Fortaleza e Sobral, no Ceará. Com 240 quilômetros de extensão, o traçado conecta importantes centros urbanos e econômicos do estado, passando por municípios como Caucaia, São Gonçalo do Amarante, Itapipoca e Sobral.
Além da relevância regional, o corredor atravessa áreas com significativa concentração populacional e atividade econômica, fatores que tendem a favorecer a demanda por transporte de passageiros. A ligação também pode se beneficiar da proximidade com o Complexo Industrial e Portuário do Pecém, um dos principais polos logísticos do Nordeste, ampliando as possibilidades de integração entre transporte ferroviário, indústria e comércio
No caso do Rio Grande do Norte, o potencial está mais associado à construção de uma logística voltada para o futuro. A ferrovia poderia servir, por exemplo, como apoio às cadeias produtivas da energia eólica, do hidrogênio verde, da mineração e da indústria salineira, setores que vêm ganhando importância na economia estadual.
O projeto também abre espaço para iniciativas ligadas ao turismo ferroviário e ao transporte regional, alternativas que vêm sendo estudadas em outras partes do país para complementar as receitas de operação.
Por enquanto, porém, o principal resultado imediato é recolocar o Rio Grande do Norte no radar dos investimentos ferroviários federais após décadas de ausência dos grandes programas nacionais de expansão da malha ferroviária.