Demorou, mas parece que finalmente o governo Lula resolveu efetivamente dar uma forcinha para o PT do Rio Grande do Norte com o desembarque do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na quinta-feira (20) para o primeiro ato político de sua campanha depois do lançamento oficial da candidatura à reeleição. O presidente, que muitas vezes é cobrado por não ter dado ao RN a prioridade que deu a outros Estados do Nordeste em termos de infraestrutura, mesmo tendo uma correligionária no governo, desta vez irá a Macaíba, antes do palanque, com uma agenda com um significado bem mais concreto para o Estado. Lula estará no Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo, o PAX, para anunciar a instalação de um dos dois supercomputadores de inteligência artificial que o governo federal decidiu adquirir.
A agenda em Macaíba praticamente elimina a dúvida sobre o destino do anúncio. O PAX é justamente o local apresentado pelo Rio Grande do Norte ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação para receber a máquina. A ministra Luciana Santos já esteve no parque, acompanhou a estrutura disponível e confirmou que a decisão final caberia ao presidente.
A notícia ganhou peso nas últimas semanas porque o governo federal mudou o tamanho da aposta. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial previa inicialmente um supercomputador de aproximadamente R$ 1,8 bilhão. Agora, o governo pretende comprar dois equipamentos, com investimento superior a R$ 2 bilhões. Um terá tecnologia de origem americana e outro será desenvolvido com participação chinesa. A decisão é uma resposta direta ao que está acontecendo no mercado mundial de inteligência artificial, dominado por uma disputa tecnológica cada vez mais aberta entre Estados Unidos e China.
A escolha de dois fornecedores não é um detalhe técnico. É uma decisão de política tecnológica. Os Estados Unidos concentram boa parte da produção dos chips e dos equipamentos utilizados nos sistemas mais avançados de inteligência artificial. A China, submetida a restrições americanas para acessar componentes de última geração, vem acelerando a produção própria e já apresenta avanços importantes em supercomputação. Um sistema chinês chegou recentemente ao topo de um ranking internacional.
O Brasil não tem escala para disputar essa corrida com americanos ou chineses, mas pode tentar evitar ficar inteiramente dependente deles. É essa a lógica por trás da decisão de comprar equipamentos de origens diferentes e, ao mesmo tempo, investir na formação de pesquisadores e no desenvolvimento de tecnologia nacional.
É aí que a chegada de um dos supercomputadores ao Rio Grande do Norte ganha importância. O equipamento não será apenas uma máquina instalada em um prédio. Seu valor está na capacidade de processamento que poderá ser colocada à disposição de universidades, centros de pesquisa, empresas e órgãos públicos.
O PAX já tem uma estrutura. São 50 hectares, cerca de 15 mil metros quadrados de área construída e 22 empresas e instituições instaladas. A UFRN identifica Macaíba como um de seus campi e registra a integração entre sua estrutura acadêmica, o PAX e as instituições de pesquisa instaladas na região. O parque também está integrado ao Instituto Santos Dumont, ao Instituto Internacional de Neurociências Edmond e Lily Safra, que têm o neurocientista Miguel Nicolellis entre seus fundadores. Essa proximidade com a UFRN é um dos pontos que tornam a candidatura potiguar mais consistente. O supercomputador encontraria um ambiente onde já existe universidade, pesquisa científica, formação de profissionais, institutos especializados e empresas. O PAX foi concebido justamente para aproximar academia, governo e setor produtivo e tem entre suas áreas de atuação energia, saúde e indústria 4.0.
A vantagem de Macaíba não está apenas no espaço físico disponível para receber a máquina. Está na possibilidade de colocar uma grande capacidade de processamento no meio de um ecossistema científico que já existe e pode fazer uso dela.
Energia renovável
Há ainda um fator que pesa cada vez mais nesse tipo de investimento. Energia. Um supercomputador de grande porte consome muita eletricidade e precisa funcionar de forma contínua. O RN tem uma vantagem objetiva nesse ponto, com uma das maiores concentrações de geração eólica do país e forte expansão da energia solar.
O momento internacional também favorece essa discussão. Estados Unidos e China estão disputando não apenas quem terá os melhores sistemas de inteligência artificial. A disputa envolve chips, data centers, energia, capacidade de processamento, dados e domínio tecnológico. A China vem tentando reduzir sua dependência de componentes estrangeiros, enquanto os Estados Unidos utilizam controles de exportação para limitar o acesso chinês a tecnologias consideradas estratégicas.
Nesse cenário, o Brasil está tentando construir uma posição própria. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial prevê R$ 23 bilhões em investimentos até 2028 e estabelece a expansão da capacidade nacional de computação como uma das bases da estratégia. A decisão de distribuir os dois novos supercomputadores em regiões diferentes também atende a uma preocupação antiga, a concentração da infraestrutura científica de alto desempenho no Sul e no Sudeste.
Força na campanha
O anúncio do supercomputador e a presença do presidente no seu primeiro ato político após o lançamento oficial da candidatura, mostram que o PT está apostando que ainda pode virar o jogo no RN com a candidatura de Cadu Xavier que aposta tudo na influência direta de Lula junto ao eleitorado potiguar. Não a toa, ela assumiu a alcunha de Cadu de Lula para tentar marcar posição e grudar seus votos ao do candidato petista à Presidência que lidera com folga as pesquisas de opinião no Estado enquanto o própio Cadu ainda não é muito conhecido do eleitorado.