voto feminino.jfif

Grupos radicais defendem restrição ao voto feminino nos EUA

Nos Estados Unidos, um discurso que por décadas ficou restrito a grupos marginais da direita radical passou a ganhar mais visibilidade nas redes sociais e em ambientes conservadores. Trata-se da defesa do fim da 19ª Emenda da Constituição americana, aprovada em 1920 e responsável por proibir que mulheres fossem impedidas de votar por causa do sexo. Foi a base legal do sufrágio feminino no país.

A proposta continua minoritária e sem apoio institucional relevante no Congresso ou na Suprema Corte. Ainda assim, a tese deixou de ser apenas provocação isolada de alguns malucos para aparecer com mais frequência em podcasts, influenciadores digitais, movimentos religiosos ultraconservadores e setores ligados ao nacionalismo cristão. A campanha usa o slogan “Repeal the 19th”, algo como revogar a 19ª Emenda.

Os argumentos variam. Alguns defendem o chamado voto por família, em que o homem representaria o núcleo familiar nas urnas. Outros sustentam que a entrada massiva das mulheres no eleitorado teria deslocado a política americana para pautas progressistas. Em muitos casos, especialistas veem também uma estratégia para ganhar atenção e engajamento online.

Embora Donald Trump não tenha proposto revogar a emenda, o ambiente político em torno de sua volta ao poder ajudou a recolocar debates sobre direitos femininos no centro da agenda. Reportagem da DW Brasil mostrou que parte do eleitorado feminino teme impactos de um novo governo republicano em temas como aborto, igualdade de gênero e representação política.

Em 2025, Trump assinou uma ordem executiva (uma espécie de Medida Provisória de lá) endurecendo exigências documentais para registro eleitoral. Organizações civis alegaram que a medida poderia dificultar o voto de milhões de pessoas, especialmente mulheres casadas que mudaram de sobrenome e enfrentam divergências entre documentos. O debate reforçou a percepção de que direitos formalmente garantidos também podem ser afetados por barreiras práticas.

O tema ganhou nova repercussão após o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, postar vídeo defendo o fim do voto feminino e aparecer ligado a conteúdo com a mensagem “Repeal the 19th”, O episódio ampliou a visibilidade de uma pauta antes restrita a nichos radicais e gerou críticas de setores que veem na retórica um teste de limites do debate democrático americano.

Há um contraste, como em tudo que envolve o presidente americano. Em 2020, no centenário da 19ª Emenda, Trump realizou um ato na Casa Branca e concedeu perdão póstumo à sufragista Susan B. Anthony, presa em 1872 por votar quando mulheres ainda eram proibidas de participar das eleições. O gesto foi visto na época como tentativa de ampliar apoio entre eleitoras.

A 19ª Emenda representou uma das maiores expansões do voto na história americana. A própria DW Brasil destacou em reportagem sobre o centenário que, embora mulheres brancas tenham conquistado o direito em 1920, negras seguiram enfrentando barreiras até a década de 1960.

Sem viabilidade jurídica real no curto prazo, a campanha pelo fim da emenda funciona mais como termômetro político. Ela indica até onde setores radicais estão dispostos a tensionar consensos democráticos históricos e transformar disputas de gênero em pauta eleitoral permanente.


Notícias relacionadas

Mais lidas

Perfil

Foto de perfil de Heverton Freitas

Heverton de Freitas