A política é feita de propostas, alianças e discursos. Pelo menos no papel. Na prática, é feita de símbolos. E poucos políticos potiguares parecem ter compreendido tão bem essa lógica e ter tanta sorte para isso quanto o candidato ao Governo do RN, Allyson Bezerra (União Brasil).
Nos últimos anos, o ex-prefeito de Mossoró viu adversários tentarem associar sua imagem a características consideradas depreciativas. Em vez de rejeitar os rótulos, porém, ele tem optado por incorporá-los à sua narrativa política.
A estratégia voltou a ficar evidente nesta semana. Durante ato político em Mossoró, a deputada estadual Isolda Dantas (PT) referiu-se a Allyson como “calango”, ao desafiar o adversário a entregar a senha do celular em referência à investigação que atingiu sua gestão municipal.
A reação veio rapidamente. Em vídeo publicado nas redes sociais, Allyson transformou a comparação em motivo de orgulho, afirmando que o calango é um símbolo da resistência sertaneja e da capacidade de sobreviver às adversidades.
A estratégia foi além do discurso. Um personagem fantasiado de calango passou a acompanhá-lo em eventos de campanha, reforçando visualmente a mensagem de identificação com o sertão e com suas origens.
Não é a primeira vez que isso acontece.
Em maio, o senador Rogério Marinho ironizou o chapéu de couro usado por Allyson, classificando o acessório como “esquisito”. A declaração provocou forte repercussão justamente porque o chapéu é um dos símbolos mais reconhecidos da cultura nordestina.
Em vez de abandonar o acessório, ele afirmou que o chapéu representa sua história, o trabalho e suas raízes sertanejas, incorporando o objeto ainda mais fortemente à imagem da campanha.
O mesmo fenômeno já havia ocorrido em 2020. Durante a disputa pela Prefeitura de Mossoró, a então prefeita Rosalba Ciarlini chamou Allyson de “pobrezinho” durante um debate. O episódio repercutiu negativamente e acabou reforçando a narrativa do jovem candidato oriundo de origem humilde enfrentando uma das mais tradicionais famílias políticas da cidade e dizem que carimbou sua vitória nas urnas naquele ano.
Meses depois, Allyson derrotaria Rosalba nas urnas e seria eleito prefeito de Mossoró com 47,5% dos votos, encerrando o ciclo político do grupo rosadista no comando do município.
A repetição dos episódios ajuda a explicar um dos traços mais interessantes da trajetória política de Allyson: sua capacidade de converter ataques pessoais em elementos de identificação popular.
A lógica não é nova na política. Lideranças em diferentes países transformaram apelidos pejorativos, características físicas ou marcas culturais em instrumentos de mobilização eleitoral. Quando isso acontece, o ataque deixa de enfraquecer o adversário e passa a funcionar como reforço de sua identidade.
A apropriação de símbolos criados por adversários tem tradição na política. No Rio Grande do Norte, o exemplo mais conhecido remete à campanha vitoriosa de Aluízio Alves ao governo do Estado, em 1960. O "Cigano Feiticeiro", utilizado inicialmente por opositores para atacá-lo, terminou incorporado ao imaginário eleitoral que cercou sua candidatura.
A lógica é conhecida pelos especialistas em comunicação política. Quando um apelido ou crítica é absorvido pelo alvo e ressignificado positivamente, o ataque perde força. Em alguns casos, acaba produzindo o efeito inverso ao desejado, fortalecendo a identidade do candidato junto aos seus apoiadores.
É o que parece ocorrer agora com o "calango". Criado para provocar, o personagem pode acabar se transformando em mais uma marca da trajetória política de Allyson Bezerra. Como mostram exemplos do passado, na política os símbolos nem sempre pertencem a quem os cria. Muitas vezes, pertencem a quem sabe usá-los melhor.
No caso de Allyson, o “pobrezinho” virou símbolo de ascensão social. O chapéu de couro passou a representar orgulho nordestino. E agora o “calango”, criado como provocação, corre o risco de se transformar em mais um personagem da campanha.