O atentado que matou o assessor Alyson Diego e deixou ferido o vereador Cabo Deyvison (PL), na noite de segunda-feira (15), em Mossoró, produziu efeitos que vão além da investigação policial. Embora as forças de segurança tenham afirmado que não há, até o momento, indícios de motivação política, o episódio recolocou a violência urbana no centro do debate público e provocou impactos imediatos sobre dois dos principais projetos políticos que disputam espaço na sucessão estadual de 2026.
Cabo Deyvison realizava uma transmissão ao vivo em frente à Unidade de Pronto Atendimento do Alto de São Manoel quando ocupantes de um veículo efetuaram diversos disparos. Alyson Diego, responsável pela gravação, foi atingido na cabeça e morreu. O vereador foi baleado nas pernas e socorrido para o Hospital Regional Tarcísio Maia. Na manhã desta terça-feira (16), durante coletiva de imprensa na Secretaria Estadual de Segurança Pública, autoridades informaram que três suspeitos são investigados e que a hipótese de motivação política não integra, neste momento, as principais linhas de apuração.
Apesar disso, o atentado alterou rapidamente a pauta política do estado. O primeiro impacto atinge o discurso da segurança pública adotado pelo grupo da governadora Fátima Bezerra (PT) e pelo pré-candidato ao Governo do Estado, Cadu Xavier, também do PT. Nos últimos meses, o governo tem destacado a redução de indicadores criminais e os resultados das ações de combate à violência. Um atentado contra um vereador em plena transmissão pelas redes sociais, porém, produz uma imagem de forte repercussão pública e amplia a distância entre os números oficiais e a percepção de insegurança presente em parte da população.
O caso ganha ainda mais peso diante dos dados da própria Mossoró. Com a morte de Alyson Diego, o município chegou à marca de 73 mortes violentas registradas em 2026. Trata-se de um número expressivo para a segunda maior cidade do Rio Grande do Norte e que reforça uma sensação de insegurança frequentemente explorada no debate político.
Em nota, o pré-candidato Cadu Xavier classificou o atentado como um ato criminoso e covarde que agride a democracia e o direito à vida, manifestando solidariedade às vítimas e cobrando uma investigação rápida. A governadora Fátima Bezerra também se pronunciou, informou ter determinado prioridade máxima à apuração e afirmou que as forças de segurança foram mobilizadas para dar uma resposta rápida ao caso.
O segundo efeito político alcança Allyson Bezerra. Embora não exista qualquer elemento que vincule o atentado à administração municipal ou à atuação política do vereador, o episódio ocorreu justamente quando Cabo Deyvison produzia conteúdo para criticar a situação da saúde pública municipal. A cena de violência registrada ao vivo durante uma atividade de fiscalização da oposição acabou deslocando o foco do debate local.
A postura adotada por Allyson chamou atenção. Ele, que enfrentou forte oposição do vereador agora vítima de violência, adotou uma postura cautelosa e limitou-se a divulgar uma nota de solidariedade às vítimas e de apoio às investigações.
O tom institucional dos dois candidatos contrasta com o movimento realizado por lideranças do PL, partido do vereador que é pré-candidato a deputado federal, e que tem um perfil conservador e fortemente alinhado a pautas punitivistas. O partido abriga grande parte da chamada "bancada da bala", composta por congressistas ligados a forças de segurança e defensores da flexibilização do porte de armas e de estratégias focadas na coerção estatal contra a criminalidade.
Poucas horas após o atentado, Álvaro Dias, pré-candidato a governador pelo partido, viajou a Mossoró, visitou Cabo Deyvison no hospital e divulgou declarações cobrando uma resposta firme das autoridades. Álvaro também anunciou que solicitará apoio da Polícia Federal nas investigações e associou o caso à atuação das facções criminosas. O senador Rogério Marinho também se manifestou prometendo pedir à Polícia segurança ao vereador atingido.
Investigações
Durante a coletiva realizada nesta terça-feira, o secretário estadual de Segurança Pública, coronel Araújo, procurou afastar interpretações precipitadas sobre a motivação do crime. Segundo ele, a investigação está concentrada no homicídio de Alyson Diego e na tentativa de homicídio contra Cabo Deyvison. O comandante-geral da Polícia Militar, coronel Alarico, informou que os suspeitos abandonaram o veículo utilizado na ação e que um dos investigados teria vindo do Ceará para Mossoró. As buscas contam com apoio de forças estaduais e federais.
Enquanto a polícia tenta esclarecer quem atirou e por quê, o atentado já produziu um efeito concreto no ambiente político potiguar. Em poucas horas, a segurança pública voltou ao centro da disputa eleitoral. Afinal episódios de grande repercussão costumam produzir mais impacto na opinião pública do que estatísticas e séries históricas.