Assinada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e em nome de Deus, Pátria e Família, a carta lida pelo senador Flavio Bolsonaro neste sábado não serviu apenas para tentar conter as divergências internas do partido. Na prática, serviiu para mostrar com que lado da família está o ex-presidente e jogar água fria no projeto político de Michelle Bolsonaro, que nos últimos meses vinha sendo apresentada por aliados como alternativa eleitoral competitiva para 2026.
O gesto do ex-presidente ocorre num momento delicado para o bolsonarismo. O grupo atravessa disputas abertas entre parlamentares, divergências regionais e uma guerra silenciosa pela herança política do ex-chefe do Executivo. Ao escolher Flávio como “porta-voz” e depositário de sua confiança, Bolsonaro enviou um recado inequívoco ao partido sobre quem pretende ver no centro da sucessão.
A decisão tem peso simbólico porque atinge justamente Michelle, que havia ampliado sua influência interna desde a derrota eleitoral de 2022. A ex-primeira-dama assumiu protagonismo em agendas nacionais, fortaleceu sua presença junto ao eleitorado evangélico e chegou a ocupar espaços tradicionalmente reservados ao núcleo político da família Bolsonaro.
Nos bastidores, porém, a relação entre Michelle e Flávio já vinha acumulando desgastes. O conflito mais recente surgiu em torno das articulações eleitorais no Ceará e acabou provocando a saída de Michelle da presidência do PL Mulher, além de uma redução significativa de sua atividade política nas redes sociais.
A carta divulgada por Bolsonaro funciona como uma tentativa de encerrar a disputa antes que ela ganhe contornos irreversíveis. O problema é que o próprio apelo à unidade revela o tamanho da fragmentação. Quando Flávio fala em “boicote” e pede que aliados “vistam a camisa”, ele admite que parte importante da base ainda resiste ao seu nome.
O movimento também produz um efeito colateral para o governo Lula. Enquanto o Planalto tenta concentrar o debate em temas econômicos e administrativos, o noticiário político volta a ser capturado pelas disputas internas da direita e pelos capítulos da sucessão bolsonarista. O centro da oposição continua sendo a família Bolsonaro, mas nem mesmo dentro dela existe consenso sobre quem comandará o projeto em 2026.