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Até Bolsonaro defende o Bolsa Família

Quando Jair Bolsonaro disputou a Presidência em 2018, parte importante de sua base política via o Bolsa Família como símbolo do modelo petista que prometia combater. O discurso era frequentemente acompanhado de críticas ao assistencialismo, à dependência de programas sociais e à suposta falta de estímulo ao trabalho. Oito anos depois, um dos principais herdeiros políticos do ex-presidente adota uma posição bastante diferente.

Pré-candidato ao Palácio do Planalto, o senador Flávio Bolsonaro afirmou nesta semana que o Bolsa Família é um "direito adquirido" dos brasileiros e uma garantia de estabilidade para quem já enfrentou a fome. Mais do que defender a manutenção do programa, sugeriu mecanismos para ampliar a proteção aos beneficiários que conseguem ingressar no mercado formal de trabalho.

A declaração chamou a atenção porque boa parte da base do candidato do PL é de empresários que vivem acusando o programa social criado no governo Lula de ser o responsável pela falta de mão-de-obra em diversas atividades que ao fim e ao cabo forçaram as empresas a pagarem mais para ter quem queira trabalhar, especialmente na área rural.

O reposicionamento de Flávio também contrasta com anos de críticas da direita ao Bolsa Família. Durante campanhas eleitorais, não foram raras as acusações de que o benefício estimulava a dependência do Estado ou desestimulava a busca por emprego.

Mesmo durante o governo Bolsonaro, embora o benefício tenha sido mantido e posteriormente transformado no Auxílio Brasil, integrantes da base governista continuaram defendendo uma reformulação profunda do modelo criado nos governos petistas.

Agora, o senador adota o caminho oposto. Ao afirmar que existe preconceito contra beneficiários do programa e que muitos brasileiros temem perder a renda ao conseguir um emprego formal, Flávio aproxima seu discurso de argumentos historicamente utilizados pelo próprio PT.

Imprensa

A declaração se soma a outra mudança significativa. No mesmo evento, Flávio classificou como um erro a forma como o governo Bolsonaro se relacionou com a imprensa profissional. Segundo ele, houve preconceito na distribuição de verbas publicitárias e a relação com os veículos de comunicação precisa ser modificada.

As duas posições representam uma tentativa clara de ampliar o alcance eleitoral do bolsonarismo para além de seu núcleo tradicional. O discurso procura reduzir resistências entre eleitores de baixa renda e junto a setores moderados que rejeitaram os frequentes conflitos entre Jair Bolsonaro e a imprensa durante seu mandato.

A mudança de tom é especialmente relevante porque a hostilidade aos meios de comunicação foi uma das marcas mais visíveis do governo anterior. Bolsonaro acumulou atritos com jornalistas ao longo de todo o mandato. Em diversas ocasiões, chamou profissionais da imprensa de mentirosos, mandou jornalistas calarem a boca, acusou veículos de comunicação de atuarem contra seu governo e estimulou a desconfiança de seus apoiadores em relação ao noticiário produzido pelos grandes grupos de mídia.

Em janeiro de 2020, declarou que jornalistas eram uma "raça em extinção" e afirmou que quem lia jornais ficava desinformado. Meses depois, ao ser questionado sobre depósitos feitos por Fabrício Queiroz na conta da então primeira-dama Michelle Bolsonaro, respondeu a um repórter dizendo que tinha vontade de "encher sua boca com uma porrada". A cena tornou-se um dos episódios mais emblemáticos da relação conflituosa entre o governo e a imprensa.

A retórica também foi incorporada por influenciadores e lideranças bolsonaristas. Expressões como "extrema imprensa", "Globo lixo" e "velha mídia" passaram a fazer parte do vocabulário político do movimento. Equipes de reportagem foram hostilizadas em manifestações e nos cercadinhos montados em frente ao Palácio da Alvorada.

O bolsonarismo busca ampliar sua capacidade de diálogo com o eleitorado de centro para enfrentar uma disputa presidencial que tende a ser menos ideológica e mais voltada para temas econômicos e sociais.

Resta saber se, eleito, irá fazer o que diz agora, ou vai esquecer tudo o que disse na campanha e administrar ao estilo do pai a quem deve anistiar e dar uma função importante no governo junto com o irmão Eduardo Bolsonaro, considerado o mais radical da família real da direita.  

 

 


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