O Rio Grande do Norte consolidou sua posição como um dos protagonistas da transição energética brasileira. No Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE 2035), elaborado pelo Ministério de Minas e Energia e pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), dois municípios potiguares ganham destaque nacional: Angicos, no interior do estado, e Guamaré, no litoral norte. A avaliação do governo federal é que ambos terão papel estratégico na infraestrutura energética brasileira da próxima década.
O caso de Angicos está diretamente relacionado à expansão da rede de transmissão de energia. O PDE prevê a implantação do chamado Bipolo Nordeste II, um dos maiores projetos elétricos do país, com investimento estimado em R$ 26,5 bilhões. A estrutura utilizará tecnologia em corrente contínua de alta tensão (HVDC) para transportar grandes volumes de energia renovável produzida no Nordeste até os principais centros consumidores do Sudeste. A cidade potiguar abrigará uma das estações conversoras do sistema, tornando-se um ponto-chave para o escoamento da energia gerada por parques eólicos e solares da região.
A importância desse empreendimento cresce à medida que o Nordeste amplia sua participação na matriz elétrica nacional. Segundo o PDE, a região deverá elevar sua capacidade de exportação de energia para cerca de 24 gigawatts após 2033, reforçando sua condição de principal fornecedora de energia renovável do país. Nesse contexto, o Rio Grande do Norte deixa de ser apenas um grande produtor de eletricidade limpa e passa a ocupar posição relevante na logística energética nacional.
Enquanto Angicos se destaca na transmissão elétrica, Guamaré aparece como peça fundamental da infraestrutura de petróleo e gás natural. O município já abriga importantes operações da cadeia petrolífera brasileira e continuará sendo estratégico para o processamento, armazenamento e movimentação de combustíveis. O PDE menciona a ampliação da oferta de gás natural no Nordeste e aponta Guamaré como um dos polos centrais para garantir maior segurança energética à região.
A expectativa do governo é que a produção nacional de gás natural cresça fortemente até 2035, reduzindo dependências externas e ampliando a competitividade da indústria brasileira. Nesse cenário, a infraestrutura localizada em Guamaré ganha importância adicional, principalmente pela integração com novos projetos de gasodutos, unidades de processamento e terminais de apoio à expansão do mercado nordestino.
O relatório também reforça que o Rio Grande do Norte seguirá entre os líderes nacionais em geração renovável. A projeção para o período 2026-2035 aponta expansão de aproximadamente 3,3 GW em energia solar, quase 900 MW em energia eólica e novos projetos de biomassa. A continuidade desse crescimento tem relação direta com a necessidade de reforçar a infraestrutura de transmissão, justificando projetos como o Bipolo Nordeste II.
Outro aspecto relevante é o potencial do estado para atrair novos investimentos industriais. O PDE identifica o Nordeste como a principal fronteira brasileira para projetos de hidrogênio de baixa emissão de carbono, setor que deverá movimentar bilhões de reais nos próximos anos. A combinação de ventos fortes, elevada incidência solar, disponibilidade de áreas para geração renovável e localização estratégica próxima aos mercados internacionais coloca o Rio Grande do Norte entre os estados com maior capacidade de receber empreendimentos ligados à nova economia verde.
Além disso, o documento cita o estado entre os potenciais destinos de grandes data centers, atividade que exige enorme disponibilidade de energia elétrica. Com empresas globais buscando reduzir suas emissões de carbono, regiões capazes de oferecer energia renovável em larga escala ganham vantagem competitiva. O crescimento desse segmento pode representar uma nova frente de diversificação econômica para o estado, agregando tecnologia e atraindo investimentos de alto valor agregado.
O plano também abre perspectivas para o avanço da energia eólica offshore, produzida em parques instalados no mar. Com a recente regulamentação do setor, o litoral potiguar aparece entre as áreas com melhores condições naturais para receber futuros projetos. Embora grande parte desses investimentos ainda esteja em fase de estudos, o PDE considera que o Nordeste terá papel central no desenvolvimento dessa nova indústria energética.
Na avaliação geral do PDE 2035, o Rio Grande do Norte emerge como um dos estados mais beneficiados pela expansão do setor energético brasileiro. Se no passado a importância potiguar estava concentrada na produção terrestre de petróleo, o planejamento para a próxima década mostra uma mudança de perfil: o estado passa a ser visto como uma plataforma estratégica para energias renováveis, gás natural, transmissão elétrica, hidrogênio verde e novas atividades industriais intensivas em energia limpa. Dentro dessa transformação, Angicos e Guamaré aparecem como símbolos de uma nova geografia energética nacional, conectando o interior produtivo e o litoral industrial às principais oportunidades da economia de baixo carbono.