A publicação do Atlas da Violência 2026, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), reforça o discurso do governo do Estado e, por consequência, do seu candidato Cadu Xavier (PT) para as eleições deste ano, justamente quando a violência vem sendo o tema central da campanha de seus adversários.
Segundo os dados publicados no Atlas da Violência, o Rio Grande do Norte reduziu em 51,6% a taxa oficial de homicídios registrados entre 2014 a 2024.
O resultado coloca o RN como o quinto estado do país e o segundo do Nordeste (atrás apenas de Sergipe) que mais reduziu a letalidade urbana na última década, consolidando uma trajetória de superação daquela que ficou conhecida como a "crise dos presídios e das facções" entre 2017 e 2018. No recorte recente de cinco anos, para pegar o mandato da governadora Fátima Bezerra, a queda foi de 40,8%.
No entanto, por trás dos gráficos de declínio acentuado que alimentam os releases oficiais, o relatório de 172 páginas revela um segundo cenário. Trata-se de uma violência que não necessariamente aparece nos boletins de ocorrência de crimes de rua: a seletividade racial, a persistente perda de vidas jovens e um forte avanço nos crimes silenciosos como a violência sexual e doméstica contra crianças e vulneráveis.
A Juventude no Alvo
A redução de homicídios não eliminou a juventude como o principal alvo dos gatilhos. Em consonância com a tendência nacional descrita no relatório, onde mais de 301 mil jovens de 15 a 29 anos foram assassinados na última década (uma média assustadora de 75 mortos por dia), o perfil das vítimas no RN permanece majoritariamente masculino e jovem.
No Brasil, os homens jovens representam 93,6% das mortes nessa faixa etária, impulsionados fundamentalmente pelo uso de armas de fogo, que respondem por 84,1% dos óbitos de adolescentes entre 15 e 19 anos. No Rio Grande do Norte, embora o volume total de mortes tenha caído, a proporção de jovens entre as vítimas da criminalidade chega a 49,8 assassinados por cem mil habitantes. Acima da média nacional que é de 42,2 por cem mil habitantes.
A Violência Intramuros: O avanço sobre as crianças
Se as mortes decorrentes da guerra de facções recuaram, o Atlas da Violência acende uma luz vermelha sobre o que acontece dentro de casa. No Brasil, as notificações de violência sexual contra crianças de 0 a 4 anos quadruplicaram na última década. Na faixa de 5 a 14 anos, o salto nacional foi de 6.594 para 29.135 notificações anuais.
O relatório faz um alerta contundente: cerca de dois terços dessas violações acontecem dentro da própria residência da vítima, e para a primeira infância (0 a 4 anos), o agressor é um familiar ou conhecido em 79,9% dos casos.
O Ponto Cego das "Mortes Ocultas"
O jornalismo de dados do Atlas joga luz, ainda, sobre uma fragilidade institucional que afeta diretamente o RN: a qualidade da informação de saúde. Entre 2023 e 2024, o Brasil viu saltar em 23,8% as Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI). Trata-se daquele óbito em que o Estado sabe que foi uma morte violenta, mas não consegue definir se foi um homicídio, suicídio ou acidente.
Utilizando algoritmos de Inteligência Artificial para reclassificar essas mortes, o Atlas descobriu que milhares de assassinatos estavam "ocultos". No RN, enquanto a taxa oficial registrada em 2024 foi de 23,5 por 100 mil habitantes, a taxa estimada real após a correção do "ponto cego" sobe para 26,8. Embora o estado continue em uma sólida rota de queda (-8,2% na taxa estimada entre 2023 e 2024), a divergência de números aponta para o desafio técnico de perícia e investigação que o Instituto Técnico-Científico de Perícia (Itep) e a Polícia Civil ainda precisam enfrentar.
Nordeste
O cenário do RN contrasta com o de outros estados do Nordeste. O Ceará, por exemplo, registrou taxa estimada de 43,7 homicídios por 100 mil habitantes em 2024 e apresentou aumento de 23,8% em relação ao ano anterior. A Bahia aparece com taxa de 42,6 e Pernambuco com 38,6.
No ranking regional das taxas estimadas de homicídios em 2024, o Rio Grande do Norte aparece em posição intermediária, abaixo de estados como Ceará, Bahia, Alagoas, Pernambuco e Maranhão, e próximo de Paraíba, Sergipe e Piauí.
Confira o ranking do Nordeste nas taxas estimadas de homicídios em 2024:
- Ceará – 43,7 por 100 mil habitantes
- Bahia – 42,6
- Alagoas – 39,8
- Pernambuco – 38,6
- Maranhão – 31,7
- Rio Grande do Norte – 26,8
- Paraíba – 26,0
- Sergipe – 24,2
- Piauí – 21,4
O Atlas da Violência 2026 aponta ainda que, apesar da queda nacional nos registros oficiais de homicídios, houve aumento expressivo das mortes violentas classificadas como causa indeterminada em vários estados.