As mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Danicel Vorcaro continuam dando o que falar e ajudam a explicar por que o ex-controlador do Banco Master conseguiu se transformar em um dos personagens mais conectados de Brasília. Os diálogos revelam uma rede de intimidade que cruzava as fronteiras da política, do Judiciário e do mercado financeiro. Nas conversas, Vorcaro era chamado de "irmão", "irmãozão", "meu amor", "amigo", e até "lindão" .
O caso mais recente está na revista Veja desta semana e envolve o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, O senador responde a uma felicitação do banqueiro com um afetuoso "Fala meu amor". Em seguida, agradece pelo "carinho e amizade fraterna" e reforça: "Sou seu irmão. Pra vida toda". A resposta de Vorcaro vem na mesma sintonia: "E eu seu. A qualquer tempo pra qualquer coisa".
No campo bolsonarista, a proximidade não era menor. Conversas reveladas anteriormente mostram que o senador Flávio Bolsonaro também tratava Vorcaro como "irmão" e "irmãozão". Em uma das mensagens mais conhecidas do inquérito, enviada na véspera da prisão do banqueiro, o filho do ex-presidente que estaa pedindo o dinheiro para o banqueiro escreveu: "Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz". Em outra troca de mensagens, os dois se chamam mutuamente de "irmão" enquanto tratam de encontros e do financiamento do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.
Outro expoente da direita, também aparece entre os interlocutores próximos de Vorcaro. Segundo relatos publicados a partir do material apreendido pela PF, o parlamentar chegou a se referir ao banqueiro usando um apelido pouco comum nos bastidores de Brasília: "lindão".
Os laços se estendiam para além do universo político. Em uma das notas divulgadas pela coluna Radar, o ex-ministro Ricardo Lewandowski surge tratado por Vorcaro como "grande mestre", expressão que demonstra o grau de deferência existente entre os interlocutores.
Advogados, empresários e operadores também aparecem nas mensagens recorrendo ao tratamento familiar. O advogado Ciro Soares, apontado em reportagens como elo entre Vorcaro e integrantes do sistema de Justiça, especialmente o ministro André Mendonça com quem marcou um encontro junto com o banqueiro, o chamava de "irmão". O mesmo tratamento aparecia em conversas com outros personagens do círculo de influência do banqueiro.
O curioso é que essa rede de afetos atravessava praticamente todos os polos de poder da República. Vorcaro conversava com nomes ligados ao governo, à oposição, ao Congresso, ao Supremo Tribunal Federal e ao mercado financeiro. Em um ambiente tradicionalmente marcado por disputas e rivalidades, o banqueiro parecia reunir interlocutores de diferentes correntes sob uma linguagem comum de amizade e proximidade.
Nem todos, porém, aderiam ao mesmo tom. A própria Veja destacou que o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, trocou dezenas de mensagens com Vorcaro sem recorrer a expressões como "irmão", "irmãozão", "maninho" ou "amor", preservando uma relação formal.
As investigações ainda buscam esclarecer se parte dessas relações extrapolou os limites da cordialidade e produziu consequências práticas em decisões políticas ou administrativas. Mas uma conclusão já se impõe a partir das mensagens conhecidas até agora: poucos personagens conseguiram reunir tantos "irmãos", "amores", "amigos" e "lindões" em sua agenda quanto Daniel Vorcaro.
Se Brasília costuma dividir seus personagens entre governo e oposição, esquerda e direita, as conversas do banqueiro sugerem outra classificação. A de uma grande família do poder.