Imagem de IA com Zuenir Ventrua.jfif

Eu não era amigo de Zuenir Ventura

É bom começar por aí porque a morte de uma pessoa conhecida tem dessas coisas. De repente, todo mundo parece ter sido íntimo dela. Eu não fui. Mas parecia que era,  como até a imagem feita por IA captou no meu prompt.

Conheci Zuenir em encontros esporádicos, alguns no Rio, outros em Natal. Quase sempre havia uma mesa, Dácio Galvão, Carlos Eduardo e algum escritor de passagem pela cidade. Às vezes Mary estava com ele. Não foram tantos encontros assim. Mas eram sempre bons encontros.

Estar perto dele era passar algumas horas ao lado de uma referência. Primeiro pelo jornalista, vencedor dos prêmios Esso e Wladimir Herzog, que eu já conhecia dos livros. Depois pelo escritor, pelo cronista, pelo homem que acabaria chegando à Academia Brasileira de Letras.

E havia as histórias.

Eu tinha lido 1968, o Ano que Não Terminou e depois 1968, o que fizemos de nós. Conhecia o jornalista que havia transformado grandes acontecimentos brasileiros em livros que ajudaram a explicar uma época.

O homem que sentava conosco à mesa era diferente. Não demonstrava qualquer sentimento de superioridade e passava longe do tom professoral de quem começou na profissão como arquivista da Tribuna da Imprensa, onde conheceu Aluízio Alves, e conhecera muita gente, muita história e muita redação antes de se tornar o Zuenir que todos conhecíamos.

Ele contava os bastidores.

De repente, Luís Fernando Verissimo deixava de ser o escritor que a gente lia e virava o vizinho de Zuenir em Ipanema, seu compadre, um sujeito fechado, de poucas palavras e que quase não saía de casa. Pois foi esse homem que Zuenir conseguiu convencer a vir a Natal com um argumento irresistível para ele. Depois do bate-papo no Encontro de Escritores, poderia tocar seu saxofone.

Ferreira Gullar também aparecia nas conversas. Era amigo de Zuenir, mas não viajava de avião por isso não veio para os Encontros.  

A amizade dele com Sérgio Cabral, o pai, ajudou a formar uma mesa inesquecível de histórias saborosas sobre o Pasquim e aquela redação irreverente com o Jaguar, Luiz Carlos Maciel e Nei Leandro de Castro.

Foram muitos os jornalistas, escritores e outros amigos que para nós eram nomes conhecidos, mas que para Zuenir tinham voz, temperamento, manias e histórias.

Era como se ele abrisse uma porta lateral da literatura brasileira para nós entrarmos.

Houve um almoço na Peixada da Comadre que ficou na memória. Zuenir e Mary, Villas-Bôas Corrêa, Nelson Motta e outros escritores. Para nós, havia alguma coisa de extraordinário em estar naquela mesa. Para Zuenir era mais um bate papo durante um almoço com amigos.

Em outra ocasião, num restaurante de Ipanema, o garçom sugeriu um vinho.

- Ótimo custo-benefício, disse.

Zuenir olhou o cardápio.

- Mais custo do que benefício.

Eram retalhos de uma leveza mundana que conviviam, sem atritos aparentes na memória, com o lado mais espesso de sua biografia. Porque o mesmo homem capaz de colecionar causos de botequim era aquele que mergulhava de corpo inteiro nas fraturas do país.

Uma das coisas que mais me impressionava era a maneira como ele falava de Cidade Partida. O livro tinha nascido da experiência de Zuenir em Vigário Geral, depois da chacina de 1993, quando passou meses convivendo com moradores e personagens do morro.

Ele contava histórias daquele período.

E havia Mauro, seu filho, que também estava entrando naquele universo de reportagem. A preocupação de Zuenir aparecia quando falava dos riscos que o filho corria.

Era o repórter falando, mas era sobretudo o pai.

Talvez a história mais reveladora fosse a do menino do Acre.

Zuenir estava fazendo a série de reportagens sobre Chico Mendes quando conheceu Genésio, um menino de 13 anos que era testemunha do assassinato e estava ameaçado. O repórter deveria contar a história. Foi o que fez. Mas não conseguiu simplesmente ir embora.

Levou Genésio para o Rio. Acolheu o menino em casa e ficou responsável por ele durante anos.

Ele próprio sabia que havia atravessado uma fronteira. O jornalista, em princípio, observa e conta. Zuenir se envolveu com o personagem.

Essa era uma das melhores explicações para o homem que conhecemos. Ele gostava de gente.

Nos primeiros encontros, ainda em 2006, não ostentava o fardão da ABL, eleito que foi para a cadeira que pertenceu a Ariano Suassuna em 2014. Mas depois de se tornar imortal, um dos papos mais saborosos era sobre as eleições para vagas abertas na Academia como a que elegeu o poeta Antônio Cícero disputando com outros nove concorrentes.

Zuenir gostava das histórias que havia por trás das pessoas como ele registrou em Minhas Histórias dos Outros com bastidores saborosos de reportagens e entrevistas que fez durante sua carreira.

Isso também explicava sua participação nos encontros de escritores, aceitando o convite de Carlos Eduardo para atuar como uma espécie de consultor informal do ENE. Zuenir não vinha apenas para falar. Ajudava a montar as mesas, sugeria nomes, telefonava para amigos, fazia contatos. Foi assim que apareceram Verissimo, Edney Silvestre, Carlos Heitor Cony, Rui Castro, o pessoal do Pasquim e tantos outros.

São lembranças que ficam de uma pessoa depois que vai embora.

Hoje percebo que não lembro de todas as histórias que Zuenir contou. Algumas desapareceram junto com a conversa. Outras ficaram pela metade. Mas lembro do homem que as contava.

Não o personagem das biografias, nem o imortal da Academia, nem mesmo o grande jornalista que eu já conhecia dos livros. Lembro daquele homem simples, sentado à mesa, falando com seu jeito mineiro acariocado, puxando uma história, lembrando de outra, misturando escritores, jornalistas, amigos e personagens.

Agora que ele foi embora fico com a sensação de que ficou faltando uma história: aquela que daria sentido ao ponto final da sua última página. 

 

 


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