O jornal traz a notícia da nova extravagância da elite mundial. Agora, os supericos querem neve dentro de casa. Não é metáfora. É isso mesmo. Entre a adega e a sala de ginástica, eles agora estão contratando empresas especializadas, apertam um botão e produzem pequenas tempestades particulares a onze graus negativos.
Fiquei imaginando como a notícia seria recebida com enorme espanto pelo homem das cavernas. Especialmente nossos antecipados que sobrevieram à Era do Gelo. Eles passavam o dia e especialmente as noites tentando não morrer congelados. Enrolavam-se em peles de animais, disputavam espaço ao redor da fogueira e sonhavam com cavernas onde não batesse vento e pudessem encontrar temperaturas mais amenas. Milhares de anos depois, seus descendentes mais bem-sucedidos, pelo menos financeiramente, gastam fortunas para recriar o problema.
Imagine a conversa.
O cidadão pré-histórico chega exausto da caça ao mamute, levando nas mãos uma lança e na outra um porrete para enfrentar os inimigos, cheio de peles de animais por sobre seu corpo e encontra, sentado sobre uma pedra mais à frente um yuppie do mercado financeiro cheio de dicas de como multiplicar sua fortuna com juros sobre juros sem precisar fazer esforço algum e vai logo explicando que acaba de investir 130 mil dólares numa sala de neve residencial.
O caçador coça a barba, sacode o gelo que se acumula na extremidade, e pensa que ouviu errado.
O visitante esclarece que a novidade faz parte de um programa de bem-estar, acompanhado por sauna de infravermelho, banheira de gelo, acompanhamento médico permanente e um sistema inteligente que regula a composição do ar da casa.
O homem das cavernas, que há três semanas respira fumaça de fogueira e divide a moradia com uma dúzia de parentes e um cachorro pré-histórico fedorento e bravo para espantar as feras e tentar evitar que os humanos acabem devorados, conclui com seu cérebro limitado, ainda pode afeito às abstrações do mercado, que a evolução humana tomou um rumo inimaginável.
A certa altura da conversa, o bilionário explica que a neve artificial melhora a circulação sanguínea e aumenta a longevidade. Com isso seu antepassado concorda imediatamente. Afinal, ele próprio já alcançou a respeitável idade de vinte e oito anos e sabe que para chegar a essa condição de ancião do grupo foi necessário, além de muita sorte para escapar dos inimigos, a prática de atividade física na lida diária com a caça para sustentar seus filhotes e os demais membros do grupo.
Mas a verdadeira surpresa ainda está por vir.
O milionário conduz o visitante até a sala principal da mansão e aponta para o esqueleto de um Tiranossauro montado na sala de jantar, cujos dentes serrilhados zombam das garrafas de vinho de dez mil dólares empilhadas ao lado. É um troféu de um bicho que viveu a milhares de anos e agora serve de luminária adquirido num leilão internacional. O homem pré-histórico examina o esqueleto e, pela primeira vez na história, e que história, encontra alguém capaz de gastar milhões para colocar ossos velhos dentro de casa.
A humanidade passou séculos lutando contra o frio, domesticando animais, inventando roupas, construindo cidades e desenvolvendo a medicina. O resultado desse esforço coletivo é que uma pequena parcela da população resolveu regressar à Idade do Gelo, mas agora com salas de neve e fósseis pagos a preço de ouro para a decoração.
Ao pagar o boleto da luz e imaginar o gasto energético de uma nevasca artificial na casa de alguém, pensei que no El Niño que se anuncia e senti uma inveja danada. Não de ter a neve. Mas da capacidade de ignorar que o mundo, lá fora, está pegando fogo.