A relação entre o senador Flávio Bolsonaro, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro transformou-se em uma das principais crises políticas e financeiras do país após a divulgação de mensagens, contratos, áudios e registros financeiros ligados ao filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.
As revelações começaram a aparecer em reportagens do Intercept Brasil e depois passaram a ser aprofundadas por outros veículos nacionais e internacionais. O material divulgado aponta que Vorcaro negociou um aporte estimado em até R$ 134 milhões para financiar o longa-metragem e projetos audiovisuais ligados ao universo bolsonarista.
As mensagens reveladas mostram Flávio Bolsonaro cobrando pagamentos previstos em contrato e tratando o banqueiro em tom de forte proximidade. Em uma delas, o senador afirma que o projeto só estava sendo possível “por causa” de Vorcaro. Em outra, pede ajuda financeira diante dos atrasos nos repasses.
O colapso do Banco Master
O caso ganhou dimensão nacional porque as negociações do filme ocorreram paralelamente ao agravamento da crise do Banco Master. O Banco Central do Brasil rejeitou operações estratégicas da instituição e posteriormente decretou sua liquidação.
Na sequência, a Polícia Federal deflagrou operações para investigar suspeitas de fraudes financeiras, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e manipulação de ativos ligados ao banco.
Relatórios citados pela imprensa apontam que o rombo investigado pode ultrapassar R$ 10 bilhões, envolvendo fundos financeiros, operações de crédito e ativos considerados de alto risco.
O dinheiro público do Rioprevidência
Um dos pontos que aumentaram a pressão política sobre o caso envolve os investimentos feitos pelo Rioprevidência, fundo responsável pelas aposentadorias dos servidores estaduais do Rio de Janeiro.
Durante o governo Cláudio Castro, aliado político de Flávio Bolsonaro, o fundo aplicou aproximadamente R$ 970 milhões em letras financeiras do Banco Master. A exposição total do Rioprevidência a ativos ligados ao banco teria chegado a cerca de R$ 2,6 bilhões, segundo documentos analisados pelo Tribunal de Contas do Estado.
Auditorias apontaram concentração elevada de recursos em ativos considerados arriscados e aplicações sem liquidez adequada. O episódio passou a ser explorado politicamente porque parte do dinheiro sob risco era composta por recursos públicos destinados ao pagamento de aposentadorias.
Até o momento, não há acusação formal de que valores do Rioprevidência tenham sido desviados para financiar o filme “Dark Horse”. Investigadores, porém, analisam o ambiente político e financeiro em torno das operações do Banco Master e sua relação com o ex-governador Claudio Castro que é aliado de Flávio Bolsonaro, senador pelo Rio de Janeiro.
Eduardo Bolsonaro e o controle do filme
Na América do Norte, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro negou participação operacional na gestão financeira do projeto audiovisual. As reportagens divulgadas posteriormente, porém, revelaram contratos nos quais ele aparece formalmente como produtor-executivo de “Dark Horse”.
Os documentos atribuem a Eduardo poderes relacionados ao orçamento, às decisões estratégicas e à gestão financeira da obra. A divergência entre a versão pública apresentada pelo ex-deputado e os contratos passou a ser explorada por adversários políticos e investigadores.
A imprensa também revelou a existência do fundo americano Havengate Development Fund, criado no Texas em 2020, anos antes de o filme vir a público. O fundo é ligado ao advogado Paulo Calixto, representante jurídico de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Parte dos recursos enviados por Daniel Vorcaro teria transitado por essa estrutura financeira americana. Investigadores passaram a questionar por que o fundo foi criado anos antes do projeto cinematográfico e qual seria sua finalidade original.
A casa no Texas
Outro ponto que entrou no radar das investigações foi a compra de um imóvel de alto padrão no Texas.
Segundo documentos divulgados pela imprensa, a casa foi adquirida por um fundo chamado Mercury Legacy Trust, também ligada ao advogado Paulo Calixto e com participação operacional de André Porciuncula, ex-integrante do governo Bolsonaro e aliado próximo da família.
A compra ocorreu no mesmo período em que recursos ligados ao projeto “Dark Horse” circulavam por fundos e empresas sediados nos Estados Unidos.
Até agora, não há acusação formal afirmando que o imóvel tenha sido comprado com dinheiro irregular ou que pertença diretamente a Eduardo Bolsonaro. Investigadores, no entanto, analisam o fluxo financeiro internacional relacionado às operações.
As conexões com a Refit
As investigações também passaram a tangenciar estruturas financeiras associadas ao grupo Refit, antiga Refinaria de Manguinhos.
A Polícia Federal investiga suspeitas de sonegação bilionária, evasão de divisas e lavagem de dinheiro envolvendo operadores ligados ao grupo empresarial. O principal nome citado é o empresário Ricardo Magro, apontado pela PF como o maior sonegador do país.
Magro vive nos Estados Unidos e foi alvo recente da Operação Sem Refino, que investiga um passivo tributário estimado em R$ 26 bilhões. A PF também apura possíveis conexões entre operadores financeiros ligados à Refit e estruturas usadas em movimentações internacionais associadas ao Banco Master.
Parte dessas linhas investigativas envolve suspeitas de lavagem de dinheiro e operações atribuídas a integrantes do PCC em redes financeiras paralelas. A investigação também apura conexões políticas no Rio de Janeiro. A operação também teve como alvo o ex-governador Cláudio Castro por suspeitas de favorecimento institucional e relações com o grupo econômico investigado.
A estratégia de defesa dos Bolsonaro
Após os vazamentos, Flávio Bolsonaro assumiui a convera com o banqueiro e passou a dizer que se tratatva de dinheiro privado usado em um projeto privado. Segundo o senador, os materiais mostram apenas tratativas relacionadas ao financiamento privado do filme sobre Jair Bolsonaro. Ele afirma que não houve uso de dinheiro público, Lei Rouanet ou contrapartida política.
Flávio também nega ter atuado para favorecer interesses do Banco Master junto ao governo ou ao sistema financeiro. Eduardo Bolsonaro, por sua vez, sustenta que não participou de qualquer operação ilegal e afirma que o caso está sendo explorado politicamente.
Aliados da família Bolsonaro passaram a defender a criação de uma CPMI para investigar não apenas o Banco Master, mas também suas relações com integrantes do governo federal e outros grupos políticos.
O que está sob investigação
A Polícia Federal, o Ministério Público e órgãos de controle financeiro analisam contratos, mensagens, transferências internacionais e movimentações bancárias relacionadas ao caso.
O foco principal é determinar a origem dos recursos usados no projeto “Dark Horse”, o caminho percorrido pelo dinheiro em estruturas financeiras nos Estados Unidos e se houve lavagem de capitais, ocultação patrimonial, tráfico de influência ou uso indireto de recursos públicos em operações privadas.
Em vídeos publicados nas redes sociais e em entrevistas, o senador afirmou que podem surgir novos registros de conversas e vídeos dele com Daniel Vorcaro, mas sustentou que o conteúdo estaria restrito às negociações e ao acompanhamento da produção do filme sobre Jair Bolsonaro.
Agora é esperar as cenas dos próximos capítulos.
A semana promete.