Trila o apito o árbitro e começa a partida, como diziam os locutores mais antigos. Qualquer que seja a sua memória afetiva o fato é que esta semana começou mais uma Copa do Mundo. A maior Copa do Mundo da história como repetem as matérias jornalísticas exibidas pelos que compraram os direitos de transmitir os jogos nos agora múltiplos canais de exibição.
A Copa do Mundo não é mais a mesma. O brasileiro perdeu o interesse pela Seleção. O futebol já não mobiliza o país como antigamente.
Não sei se as afirmações são verdadeiras, embora pareça que neste início do torneio já não há a mesma empolgação que se via antes. Mas será que com os jogos correndo e, se o Brasil for passando de fase, as audiências não vão disparar, e milhões de pessoas voltarão a discutir escalação como se fossem técnicos profissionais?
Basta olhar o sucesso dos álbuns de figurinhas a cada Mundial. Mesmo em tempos em que tudo é digital, os álbuns continuam fazendo sucesso.
Minha primeira Copa foi a de 1970. A televisão era em preto e branco. Havia uma espécie de placa colorida colocada na frente da tela para ajudar a imaginação. Não adiantava muito, mas também não atrapalhava. Naquele tempo, a fantasia fazia parte do espetáculo.
Lembro da festa pelo tricampeonato na Avenida. Lembro de Pelé, Tostão, Rivellino e Jairzinho, mesmo que não lembre exatamente dos jogos e da história da Copa que vim a ver depois de muitos anos. Mas os parentes falavam desses jogadores com intimidade como se pudessem vir visitar nossa casa a qualquer momento. Não eram superstars que moravam longe. Qualquer um podia ir ao Pacaembu, ao Morumbi ou a Vila Belmiro e ver aqueles craques em campo.
Depois vieram outros.
Em 82, o incrível time de Telê Santana com Zico, Sócrates, Falcão, Júnior, Cerezo e Éder, onde o futebol arte prevalecia. Até hoje considero a Seleção de 1982 uma das maiores injustiças da história do futebol. Talvez fosse o melhor time brasileiro que vi jogar. Não ganhou a Copa. Mas ficou na memória do país.
A derrota para a Itália doeu como poucas porque parecia impossível que um time tão talentoso fosse embora tão cedo.
Anos depois, já morando em Natal, acompanhei o tetracampeonato de 1994. Romário, Bebeto e vai que é tua Tafarellllll devolveram ao país um título que já parecia distante. Em 2002, Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho nos fizeram acordar cedo para ver eles trazerem o pentacampeonato.
Hoje é diferente.
Confesso que mal conheço a maior parte dos jogadores da Seleção atual. Não acompanho os campeonatos europeus. Não passo horas assistindo aos canais esportivos. E suspeito que não estou sozinho.
Os melhores talentos brasileiros saem cada vez mais cedo. Quando começam a ficar conhecidos, já estão jogando em Madri, Paris, Londres, Manchester ou Munique. Tornam-se celebridades globais antes de se transformarem ídolos nacionais.
Vini Jr, esse eu conheço, tem o passe cotado em 140 milhões de Euros; Bruno Guimarães (muito prazer) em 70 milhões de Euros; Gabriel Magalhães e Mateus Cunha, valem 75 milhões de Euros cada um.O que eles fazem para valer tanto eu desconheço.
Quem sabe não é essa uma das explicações para o distanciamento.
O torcedor continua gostando de futebol. Continua assistindo à Copa. Continua sonhando com o hexacampeonato. Mas já não conhece seus jogadores como conhecia antes.
Há também uma sensação difícil de explicar. Nas Copas antigas, tínhamos a impressão de que a derrota acompanhava os jogadores durante muito tempo. Pelé carregou as marcas de 1966. Zico conviveu durante décadas com as lembranças de 1982 e 1986. Na Copa de 70, alguns jogadores tinham a preocupação de perder e não poder sequer voltar para o Brasil.
Já em 2014 foi aquela vergonha nacional. O time assistiu a Alemanha jogar no Mineirão e o que aconteceu aos jogadores? Nada. Alguns são comentaristas nas emissoras este ano, outros ainda jogaram muito tempo e ninguém nem ai.
Hoje, quando a Copa termina, os atletas embarcam em seus voos particulares, retornam aos grandes clubes europeus, assinam novos contratos milionários, publicam uma mensagem nas redes sociais agradecendo o apoio da torcida, a temporada recomeça poucos dias depois e vida que segue.
Definitivamente a seleção não é mais a Pátria de chuteiras.
O futebol se globalizou. Virou um negócio gigantesco. E perdeu aquela relação de vizinhança que mantinha com o torcedor brasileiro.
Mesmo assim, não acredito que a paixão tenha desaparecido.
Ela apenas está adormecida. Basta uma sequência de vitórias que os Pachecões vão reaparecer com suas camisas amarelas. Basta um gol decisivo para que milhões de brasileiros voltem a sentir o coração acelerar diante da televisão.
O que nos resta é torcer para que o time atual nos faça sentir, outra vez, que aqueles jogadores também são um pouco nossos.
Bora Brasil!