O Rio Grande do Norte chega ao final do primeiro semestre de 2026 exibindo duas realidades. De um lado, o maior crescimento proporcional dos investimentos públicos entre os estados brasileiros. De outro, contingenciamento de quase R$ 500 milhões, caixa negativo estimado em R$ 3 bilhões e despesas crescendo muito acima das receitas. A questão é quem vai pagar essa conta a partir de 2027. Em levantamento da XP Investimentos publicado no jornal O Globo, o RN aparece entre os estados brasileiros que mais preocupam especialistas em finanças públicas em 2026. isso poucos dias após o Estado anunciar um contingenciamento de quase R$ 500 milhões no orçamento diante da frustração de receitas.
Já dados do Tesouro Nacional compilados pelo Valor Econômico mostram que os investimentos liquidados pelo Estado cresceram 575,5% nos quatro primeiros meses do ano, o maior avanço proporcional do país. Parte dos investimentos executados em 2026 também está associada à contratação de operações de crédito realizadas nos últimos anos, um movimento observado em diversos estados brasileiros. Embora os financiamentos permitam acelerar obras e projetos de infraestrutura, eles também geram compromissos financeiros que permanecem nos exercícios seguintes.
Segundo decreto publicado pelo governo, foram bloqueados cerca de R$ 497 milhões em despesas após a arrecadação ficar abaixo do esperado no segundo bimestre do ano. A medida busca adequar os gastos ao comportamento das receitas e preservar o equilíbrio fiscal.
O ajuste ocorre em meio a um cenário que já vinha sendo apontado por analistas econômicos como delicado. Levantamento da XP mostra que o Rio Grande do Norte iniciou 2026 com disponibilidade de caixa negativa próxima de R$ 3 bilhões, uma das piores situações do país.
Além disso, o estado registra um dos maiores descompassos entre crescimento de despesas e receitas. De acordo com o estudo, os gastos avançaram 17,7% acima da inflação nos primeiros meses do ano, enquanto a arrecadação cresceu apenas 5,3%.
O desempenho colocou o Rio Grande do Norte entre os cinco estados que já apresentam resultado fiscal negativo em 2026. Também integram esse grupo Tocantins, Goiás, Paraná e Mato Grosso do Sul.
Para o economista Tiago Sbardelotto, da XP, a combinação entre baixa disponibilidade de caixa e aumento acelerado das despesas torna o caso potiguar um dos mais preocupantes entre os estados brasileiros.
O cenário ocorre em um ano eleitoral marcado pela ampliação de investimentos públicos em todo o país. A XP projeta que os estados brasileiros elevarão os investimentos em cerca de 40% ao longo de 2026, movimento favorecido por medidas recentes como o Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag) e pelas novas regras para parcelamento de precatórios.
Segundo o levantamento, os estados devem encerrar o ano com déficit agregado de R$ 6 bilhões. Em 2025, o resultado havia sido positivo em R$ 6,6 bilhões.
Embora o Rio Grande do Norte não figure entre os estados mais endividados da federação, economistas observam que a principal fragilidade está na liquidez. Em outras palavras, a preocupação não está no estoque da dívida, mas na capacidade de manter recursos suficientes em caixa para cumprir compromissos financeiros e sustentar o ritmo atual de despesas.
Os dados da XP mostram que Maranhão, Rio Grande do Norte e Mato Grosso lideram o ranking dos estados onde os gastos crescem em velocidade muito superior à arrecadação. No Maranhão, as despesas avançaram 21,4% contra crescimento de 8,9% das receitas. No RN, a diferença foi de 17,7% para 5,3%. Em Mato Grosso, os gastos cresceram 16,6%, enquanto as receitas aumentaram 4,9%.
O contingenciamento anunciado pelo governo estadual sinaliza uma tentativa de frear essa trajetória diante da desaceleração da arrecadação. Ainda assim, os números indicam que o Rio Grande do Norte atravessa um dos momentos fiscais mais desafiadores do país justamente no período que antecede a troca de comando do Executivo estadual em 2027.