tunel luiz gomes[.jfif

PL critica inauguração de Lula, mas Bolsonaro fez igual

A polêmica em torno da inauguração do Túnel Major Sales revelou mais do que a disputa sobre a transposição do Rio São Francisco. Também expôs como uma prática recorrente dos governos federais muda de significado conforme quem ocupa o Palácio do Planalto. O PL acusa o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de inaugurar uma obra incompleta, embora o ex-presidente Jair Bolsonaro tenha adotado estratégia semelhante no Rio Grande do Norte durante a campanha eleitoral de 2022.

Lula esteve no estado na última quinta-feira (2) para inaugurar o túnel do Ramal do Apodi, estrutura considerada uma das principais obras da transposição do São Francisco no Rio Grande do Norte. A cerimônia, porém, ocorreu antes da chegada da água ao local, fato que ganhou repercussão nacional.

Durante o discurso, o presidente reconheceu que houve um "erro de cálculo" no cronograma e afirmou que havia visto a água se aproximando durante o voo de helicóptero. Em tom de brincadeira, disse que ela chegaria ao túnel ainda naquela noite. Horas depois, o Palácio do Planalto informou que não havia problema estrutural na obra e que a água apenas ainda não tinha alcançado o túnel no momento da solenidade, chegando ao local no fim da tarde.

A oposição aproveitou o episódio para acusar o governo de transformar uma obra ainda não concluída em ato político. Nas redes sociais, o PL publicou vídeos afirmando que o Ramal do Apodi ainda não estava pronto e classificou a cerimônia como improvisada. O senador Rogério Marinho afirmou que o Nordeste precisa da obra concluída e não de inaugurações de trechos. Já o deputado federal General Girão disse que o evento foi um "teatro" e responsabilizou Lula pelo atraso na chegada das águas ao Oeste potiguar.

As críticas, entretanto, encontram um precedente recente no próprio grupo político que hoje ocupa a oposição.

Em 30 de março de 2022, poucos meses antes das eleições presidenciais, Jair Bolsonaro participou da inauguração da Estação Cajupiranga, da Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU), em Parnamirim. A solenidade marcou a entrega do primeiro trecho da chamada Linha Branca, projeto apresentado pelo governo federal como uma das principais obras de mobilidade urbana na Região Metropolitana de Natal.

Apesar da cerimônia oficial, a estação não entrou imediatamente em operação. O sistema ainda dependia da conclusão de testes operacionais, ajustes técnicos e procedimentos de segurança. A circulação regular dos trens começou apenas semanas depois, quando a CBTU liberou o funcionamento comercial do trecho.

Na ocasião, a agenda também teve forte conteúdo político. Bolsonaro destacou os investimentos federais no Rio Grande do Norte e reforçou a candidatura do então ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, ao Senado. Assim como ocorreu agora com Lula, a inauguração foi realizada poucos meses antes do período de restrições imposto pela legislação eleitoral para publicidade institucional e entrega de obras públicas.

Quatro anos depois, o cenário se repete com os papéis invertidos. Lula desembarcou no Rio Grande do Norte acompanhado da governadora Fátima Bezerra e de aliados políticos. Durante a solenidade, interrompeu o protocolo para chamar ao palco o ex-deputado Rafael Motta, pré-candidato ao Senado, gesto interpretado como demonstração pública de apoio político.

A disputa em torno da transposição também envolve a autoria da obra. O PL sustenta que o Ramal do Apodi só avançou durante o governo Bolsonaro e que deveria ter sido concluído em 2025. O governo Lula responde que o empreendimento faz parte do Projeto de Integração do Rio São Francisco, iniciado ainda nos primeiros mandatos do presidente petista, e que a atual gestão retomou obras paralisadas e executou etapas finais do ramal.

A troca de acusações é comum e repetida por governos de diferentes partidos. Obras ainda em fase de conclusão ou dependentes dos últimos ajustes costumam ser transformadas em palco político, especialmente em anos eleitorais. O que muda, de uma eleição para outra, é quem está no palanque e quem faz a crítica.

 


Notícias relacionadas

Mais lidas

Perfil

Foto de perfil de Heverton Freitas

Heverton de Freitas