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O cinema de Alex Medeiros

Quem acompanha as colunas diárias de Alex Medeiros publicadas há anos em diferentes jornais de Natal, sabe que o cinema, junto com o futebol, a música e a política, é invariavelmente tema de suas abordagens cotidianas. Alex é capaz de ficar horas e horas na frente de uma tela assistindo filmes e séries nos finais de semana e depois comenta no seu espaço, hoje na Tribuna do Norte.

Agora, com o lançamento do livro Cine São José – 35 matinês, sabemos que o gosto pelo cinema vem de muito tempo.

Há livros que nascem de uma pauta. Outros nascem de uma dívida. O de Alex Medeiros sobre o Cine São José me parece nasceu de um acerto de contas com um tempo que lhe deixou marcas profundas. É um livro que tem apuração, mas sobretudo tem memória sobre a juventude em uma cidade que já não existe.

Natal era outra cidade. Menor, mais concentrada, com limites definidos. A expansão que hoje empurra a cidade para todos os lados ainda não tinha acontecido. A chamada zona Norte sequer fazia parte do vocabulário cotidiano. Para muita gente, a cidade praticamente terminava nas Quintas, às margens do Rio Potengi. Dali em diante era travessia, estrada para outras paragens.

Nesse cenário, os cinemas de bairro tinham uma função que hoje desapareceu. Eram espalhados por regiões populares, integrados à rotina. Não exigiam deslocamento longo nem planejamento. Faziam parte da vida. O Cine São José, pelo que se lê no livro de Alex, era um deles, cravado nas Quintas, funcionando como ponto de encontro em um bairro de perfil operário, onde o comércio, a rua e a convivência davam o ritmo dos dias.

O livro recompõe esse ambiente, recupera a origem do cinema nos anos 1950, ligado a José Avelino da Silva, comerciante que ajudou a moldar a dinâmica local. Mas não fica preso ao dado histórico. O que o livro mostra é como o cinema era uma espécie de centro cultural, ainda mais vizinho ao mercado tradicionalmente o local de encontro dos moradores de um bairro que era quase uma cidade do interior. Ele mostra gente entrando e saindo, anúncios ecoando pelos postes num alto falante e a vida acontecendo em volta.

É quando entram as crônicas que o texto ganha outra camada. Alex escreve a partir dos filmes que viu naquele tempo, boa parte clássicos do faroeste americano, e transforma cada sessão em registro de época. Títulos como Tarde Demais para Esquecer, A Última Carroça, Os Canhões de Navarone, Os Sete de Ouro, Bang Bang no Oeste e As Vinhas da Ira aparecem marcos de uma formação. Os textos não fazem uma análise técnica dos filmes, mas mostram o impacto deles em um espectador de um cinema de bairro.

Há uma dimensão quase sensorial nesse percurso. O caminho até a sala, o movimento na porta, a expectativa antes da projeção. O cinema como experiência coletiva, algo que se dividia com o bairro inteiro. E, ao mesmo tempo, como descoberta pessoal. Cada filme ampliava um pouco o mundo de quem estava ali sentado.

Sem recorrer a idealizações fáceis, o livro mostra como esses espaços ajudaram a formar repertório e pertencimento. Em uma cidade ainda em construção, com poucos equipamentos culturais formais, o cinema de bairro cumpria esse papel de janela. Era dali que se via o mundo.

Ao organizar essa memória, Alex Medeiros tira o Cine São José do esquecimento e recoloca no mapa afetivo de parte da Natal  de outros tempos. Não se trata de nostalgia, mas mostrar uma cidade que cresceu, mudou de eixo e deixou para trás alguns dos seus rituais mais simples.

 


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