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Marquise reorganiza Braseco para mercado de biometano

A Braseco S/A, empresa responsável pela operação do Aterro Sanitário Metropolitano de Ceará-Mirim, encerrou o último exercício com lucro líquido de R$ 26,1 milhões e aprovou uma ampla reestruturação administrativa que marca uma nova fase da companhia após sua incorporação ao Grupo Marquise. As mudanças foram aprovadas em Assembleia Geral Extraordinária e incluem alterações no estatuto social, uma nova composição da diretoria e a criação, pela primeira vez, de uma Diretoria Comercial.

Além do resultado financeiro, a empresa destinou R$ 17,68 milhões para a Reserva de Investimentos, indicando que parte significativa dos recursos permanecerá na companhia para financiar novos projetos. Também foi eleita a nova diretoria com mandato até 2029. Hugo Nery dos Santos assumiu a presidência, Paulo Studart Neto ficou responsável pela Diretoria de Operações e Thiago Gurgel de Oliveira Levy passou a comandar a recém-criada Diretoria Comercial.

A criação dessa nova diretoria é o principal indicativo de uma mudança no modelo de negócios da empresa. Tradicionalmente voltada à destinação final dos resíduos sólidos urbanos, a Braseco passa a estruturar uma área voltada à expansão comercial, à prospecção de novos clientes privados, à celebração de contratos com municípios e ao desenvolvimento de novos negócios relacionados à economia circular.

A estratégia acompanha o planejamento nacional divulgado pela Marquise Ambiental. Em documentos públicos, a empresa anunciou investimentos de aproximadamente R$ 400 milhões para implantação de cinco novas usinas de biometano em seis municípios brasileiros nos próximos três anos. O objetivo é transformar aterros sanitários em unidades produtoras de gás renovável, aproveitando o metano gerado pela decomposição dos resíduos para produção de combustível de baixo carbono.

O Rio Grande do Norte ocupa posição estratégica nesse planejamento. Após adquirir a Braseco, em Ceará-Mirim, e a CTR Potiguar, em Vera Cruz, a Marquise passou a controlar os dois principais aterros privados da Região Metropolitana de Natal. As duas unidades deverão produzir juntas cerca de 13,1 milhões de metros cúbicos de biometano por ano, sendo aproximadamente 9 milhões de metros cúbicos em Ceará-Mirim e outros 4,1 milhões de metros cúbicos em Vera Cruz. Esse volume deverá abastecer principalmente indústrias e empresas de transporte que buscam substituir combustíveis fósseis por fontes renováveis.

Embora a empresa não divulgue projeções oficiais de faturamento para os empreendimentos potiguares, considerando um preço entre R$ 2,50 e R$ 3,50 por metro cúbico, faixa praticada em contratos de fornecimento no Brasil, a produção anual prevista para o Rio Grande do Norte poderia representar uma receita bruta entre R$ 33 milhões e R$ 46 milhões por ano, sem considerar créditos de carbono e outras receitas acessórias. Trata-se de uma projeção baseada em preços de mercado, não de um número divulgado pela Marquise.

A aquisição da Braseco também consolida a presença da Marquise em praticamente toda a cadeia de resíduos da Grande Natal. O grupo já opera a coleta domiciliar de Natal e incorporou os dois maiores aterros privados da região, passando a concentrar desde o recolhimento até a destinação final dos resíduos.

Produção de biometano pode mudar debate sobre contrato com Natal

O novo cenário também tende a abrir espaço para debates sobre os contratos públicos. Principal cliente da Braseco, a Prefeitura do Natal é a principal cliente da empresa e foi na prática a responsável por assegurar a criação do aterro em 2004 para substituir o antigo lixão de Cidade Nova. Hoje, a prefeitura desembolsa anualmente cerca de R$ 25 milhões para a destinação dos resíduos sólidos produzidos na capital. O contrato é remunerado por tonelada de lixo encaminhada ao aterro sanitário de Ceará-Mirim, que recebe aproximadamente 20 mil toneladas de resíduos por mês provenientes do município.

Até hoje, a receita da concessionária era gerada praticamente pela prestação do serviço de disposição final dos resíduos. Com os investimentos anunciados pela Marquise Ambiental, o lixo passa também a ser matéria-prima para um novo negócio.

O novo cenário tende a provocar uma discussão que ainda não faz parte dos contratos em vigor. Como o lixo produzido pelos municípios deixa de representar apenas um custo operacional para se transformar em fonte de receita com a venda de combustível renovável, especialistas defendem que futuras licitações ou renegociações passem a discutir mecanismos de compartilhamento desses ganhos econômicos.

 


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