A inauguração da primeira fábrica de hidrogênio verde em escala industrial do Brasil, pela White Martins em Jacareí, no interior de São Paulo, mostra que o Rio Grande do Norte, mesmo líder nacional em energia eólica e com forte avanço da geração solar, ainda enfrenta muitos entraves para conseguir transformar seu potencial renovável em indústria real e negócios de grande porte.
A planta paulista começa a operar em um momento em que o RN tenta sair da fase dos anúncios. Nas últimas semanas, o governo estadual lançou o Atlas do Hidrogênio Verde, estudo técnico voltado a mapear áreas competitivas, infraestrutura e oportunidades para investidores. Também ganhou destaque a licença concedida ao projeto da Brazil Green Energy, voltado à instalação de uma planta de hidrogênio verde e amônia verde em Areia Branca, um dos empreendimentos mais avançados da carteira potiguar.
Os dois fatos anunciados pelo Governo mostram que o Estado busca criar bases concretas para disputar espaço em um setor cercado de promessas bilionárias, mas ainda com poucos projetos efetivamente em operação no país.
A experiência da White Martins, porém, revela que o mercado pode seguir um caminho diferente do imaginado inicialmente. Em vez de grandes plantas voltadas à exportação, a empresa apostou em uma unidade instalada perto de consumidores industriais já existentes. Parte da produção será vendida para indústrias de vidro, metalurgia, alimentos e química do interior de São Paulo.
Esse modelo reduz riscos. Em vez de depender de compradores internacionais, navios, portos especializados e contratos complexos de exportação, a produção atende demanda doméstica imediata.
O Rio Grande do Norte possui uma das melhores combinações de vento e sol do país, condição essencial para produzir hidrogênio verde com energia renovável competitiva, mas ainda precisa avançar em logística portuária, e sofre uma competição desigual com um mercado consumidor local muito pequeno local e falta de segurança para grandes investimentos.
Projetos como o Porto-Indústria Verde de Caiçara do Norte são vistos como estratégicos para mudar esse cenário, mas ainda continuam muito longe de sair do papel efetivamente. Sem estrutura adequada para exportação, muitos empreendimentos de maior escala podem permanecer no papel ou perder competitividade para outros polos do Nordeste.
Ao mesmo tempo, o RN pode buscar alternativas além da exportação pura como o uso do hidrogênio verde em fertilizantes, combustíveis limpos, mineração, data centers e novas indústrias que venham a se instalar no Estado.
A inauguração da fábrica paulista mostra que o mercado brasileiro começou a sair do campo das expectativas. Para o Rio Grande do Norte, a próxima etapa será provar que sua liderança em energia renovável também pode se converter em produção industrial, desde que o tão falado porto saia do papel, gerando empregos qualificados e novos negócios.