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Deixa a vida me levar

Segundo o relatório Ipsos Happiness 2026, pesquisa global que mede os níveis de felicidade da população, o Brasil é o sétimo país mais feliz do mundo. Fui ver o ranking e o resultado me surpreendeu.

Confesso que esperava encontrar, lá no topo, aqueles países onde tudo funciona: transporte pontual, silêncio nas filas, inverno civilizado. Mas não.

O primeiro lugar é da Indonésia. Depois vêm México, Colômbia, Malásia, Tailândia. O único europeu ali no alto é os Países Baixos, meio deslocado, como um turista que entrou na foto sem saber direito.

A felicidade, a julgar por essa pesquisa, não está nos lugares onde aparentemente tudo corre bem, os serviços públicos funcionam, não existe tanta desigualdade, as pessoas podem sair as ruas com seus celulares sem medo de voltar para casa sem eles.

Ao contrário, a felicidade parece que resolveu dar uma volta por lugares onde a vida onde o calor aperta, o salário às vezes acaba antes do fim do mês, o improviso é método e o futuro fica para depois. Deus proverá.

Sétimo.

O dado mais curioso: 80% dos brasileiros se dizem felizes. Oito em cada dez. Fiquei imaginando esses oito. Onde estão? O que comem? Como vivem?  como dizia o famoso bordão na apresentação do Globo Repórter nos anos áureos da apresentação na voz de Sérgio Chapelin.

Talvez um esteja no ônibus, em pé, equilibrando o corpo numa curva mais brusca e o humor numa segunda-feira, já pensando na praia no domingo. Outro pode estar abrindo uma marmita ainda morna. Tem um que acabou de sair do trabalho e já pediu uma cerveja, antes mesmo de sentar. E tem aquele que simplesmente encostou na janela e deixou o vento fazer alguma coisa por ele.

Nenhum deles, imagino, está discutindo a guerra do Irã.

Nem acompanhando, com afinco, mais uma rodada de ataques entre bolsonaristas e a esquerda, ou procurando saber onde danado o Vocaro arrumou tanto dinheiro para gastar com orgias em praias da moda e promover festas com juras de amor eterno para sua noiva que se esvaíram assim que ele encarou o primeiro xadrez.

Não por alienação. Às vezes é só falta de espaço mesmo. A vida ocupa muito.

Há dias em que a maior ambição é chegar em casa.

E, curiosamente, chega-se. Pelo menos os que responderam a pesquisa chegaram.

Talvez a felicidade more aí, nesse tipo de meta alcançada sem plateia. Um objetivo modesto, cumprido em silêncio: pagar uma conta, terminar o dia, encontrar alguém, ou não encontrar ninguém e tudo bem também.

A gente costuma tratar felicidade como se fosse um evento. Uma coisa grande, meio rara, quase turística. Mas, olhando bem, talvez ela funcione mais como um hábito.

Escovar os dentes, tomar café, reclamar do calor, rir de alguma coisa sem importância e, no meio disso tudo, perceber, sem muita cerimônia, que está tudo mais ou menos no lugar.

Claro que não está. Nunca está.

Mas também não está tão fora assim.

"A vida tem coisa ruim, mas também tem coisas boas". Como diz a já icônica frase de Tânia Maria no filme O Agente Secreto e que, foi escrita sob medida para aquela senhora de 79 anos com seu corpo franzino, tão brasileira, que reflete a resiliência de quem tem experiência no enfrentamento das agruras da vida, provando que sempre dá para superar desafios. 

Para alguns, felicidade é uma viagem planejada. Para outros, é conseguir ir ao parque com os filhos. Para muitos, é a cerveja gelada no boteco da esquina servida naquele copo que chega suando antes mesmo de você pedir, porque o garçom já sabe.

Existe uma felicidade que não aparece em foto. Que não vira postagem. Talvez seja essa que o Brasil esteja contabilizando.

Uma felicidade meio improvisada, meio teimosa, que não depende de grandes explicações. Que convive com a falta, com o atraso, com o calor, com o noticiário e ainda assim dá um jeito de aparecer.

Não o tempo todo. Mas o suficiente.

O bastante, ao que parece, para embaralhar uma certa lógica: a de que felicidade viria junto com eficiência, organização e tudo funcionando como deveria. Pelo ranking, não é bem assim.

Aliás, hoje é domingo.

Se me permitem, vou ali dar um mergulho, tomar uma cerveja gelada e ser feliz um pouco.

Se não tenho tudo o que quero, também não me falta nada.

Com o que tenho, vivo.

De mansinho, lá vou eu.

Tim-Tim.


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