Enquanto boa parte da indústria brasileira da moda busca ganhar escala, uma pequena marca instalada em uma agrofloresta no litoral sul potiguar resolveu seguir o caminho contrário. Produzir menos, valorizar o trabalho manual e apostar na identidade local. Foi essa proposta que levou a Villa Dharma, sediada em Pium, a participar da White Milano, uma das principais feiras de negócios da moda europeia.
A presença em Milão chama atenção não apenas pelo desfile ou pela passarela. O que está em jogo é a tentativa de inserir uma cadeia produtiva genuinamente potiguar em um mercado internacional cada vez mais interessado em origem, sustentabilidade e rastreabilidade. Quando um comprador europeu observa uma peça da marca, não encontra apenas linho ou algodão orgânico. Encontra renda de bilro, bordado em junco, tingimentos naturais e o trabalho de artesãs que ajudam a preservar saberes tradicionais do Rio Grande do Norte.
Criada por Vanessa Stadtlober e instalada na Ecovila Pau Brasil, a empresa mantém uma estrutura enxuta. Produz cerca de 400 peças por mês e já obtém aproximadamente 10% de seu faturamento por meio de vendas internacionais. Os números são modestos quando comparados aos grandes fabricantes do setor, mas revelam algo importante: há espaço para produtos potiguares disputarem mercados globais sem abrir mão de sua identidade.
O caso também mostra uma mudança no conceito de desenvolvimento econômico. Durante décadas, a ideia de progresso esteve associada apenas a grandes fábricas e produção em massa. A experiência da Villa Dharma sugere outra possibilidade: gerar renda a partir da criatividade, da cultura e do capital simbólico de um território. Nesse modelo, o diferencial não está na quantidade produzida, mas na história que acompanha cada peça.
A participação na White Milano teve ainda outro significado. Ao lado da Villa Dharma, marcas potiguares como Arrocho, Fio a Fio e Maria Genuíno ajudaram a colocar o Rio Grande do Norte em uma vitrine frequentada por compradores e profissionais do mercado internacional. Em tempos de competição acirrada entre estados pela atração de investimentos e oportunidades, a moda mostra que também pode ser uma porta de entrada para novos negócios.
Em uma agrofloresta de Pium, nas mãos de rendeiras e artesãs, uma marca encontrou uma maneira de levar ao mundo um produto que carrega não apenas valor comercial, mas também a identidade de um estado inteiro.