Com a aprovação do Redata, a corrida pelos novos data centers coloca São Paulo e o Nordeste diante de uma disputa que envolve energia, infraestrutura e localização. O mercado tem uma preferência natural pelo eixo São Paulo-Campinas, onde já estão concentrados os principais provedores de nuvem e onde os grandes operadores de data centers planejam novos projetos.
"Existe uma preferência natural por ficar perto das principais metrópoles", afirmou Serafim Abreu Junior, CEO da NextStream Data Centers, ao Brazil Journal. Segundo ele, o corredor entre São Paulo e Campinas concentra a maior parte dos provedores de nuvem e agora também os projetos dos chamados hyperscalers. O problema é que esses projetos também exigem grandes volumes de energia.
O governo federal tenta mudar a lógica de localização. O Redata foi criado também para estimular investimentos em regiões onde existe maior disponibilidade de energia renovável, especialmente o Nordeste. A estratégia é aproximar grandes cargas dos polos de geração e reduzir a necessidade de transportar a energia por longas distâncias.
Ceará e Piauí largaram na frente nessa disputa, atraindo projetos de data centers devido a incentivos fiscais em suas Zonas de Processamento de Exportação, mas também enfrentam limitações. O Rio Grande do Norte tem uma vantagem semelhante na geração eólica, mas ainda não conseguiu transformar essa condição em projetos de grande porte.
O Governo chegou a receber pedidos de conexão à rede de projetos de data centers com um total de 80 gigawatts em demanda – seria o suficiente para praticamente dobrar o consumo de energia no País.
Diante desses números, a infraestrutura de transmissão será decisiva. O primeiro leilão de transmissão de 2027 da Aneel inclui dois lotes que envolvem o RN e reforçam a conexão com o Ceará. A EPE também estuda reforços para atender grandes cargas eletrointensivas no eixo que envolve Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí.
O momento é particularmente importante porque o setor elétrico enfrenta simultaneamente o avanço das fontes renováveis, a necessidade de novas linhas para transportar essa energia e a chegada de consumidores capazes de demandar centenas de megawatts. Ao mesmo tempo, os primeiros leilões de baterias, previstos para dezembro, enfrentam uma disputa sobre o rateio dos custos e pressão de parte do mercado pelo adiamento. O presidente da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (Absae) alerta que um eventual adiamento do certame pode gerar déficit de potência em 2028.
É imprescindível a realização do leilão este ano. A gente tem um risco que está bem documentado de déficit de potência. Não se está fazendo leilão para entender a tecnologia, se está fazendo leilão para atender o déficit de potência da maneira mais barata possível”, defende Fábio Lima.