O avanço da inteligência artificial está trazendo uma discussão que vai muito além dos computadores e dos algoritmos. Em artigo publicado na Tribuna do Norte, o arcebispo de Natal, dom João Santos Cardoso, faz um alerta sobre correntes de pensamento que defendem o uso da tecnologia para transformar profundamente o ser humano.
Ao comentar a encíclica Magnifica Humanitas, do papa Leão XIV, o arcebispo afirma que o transumanismo e o pós-humanismo podem levar à ideia de que a humanidade é uma realidade imperfeita que precisa ser corrigida ou superada por meio da tecnologia.
Segundo dom João, o principal desafio da era da inteligência artificial não é tecnológico, mas humano. Para ele, a discussão central não deve ser o que as máquinas são capazes de fazer, mas que tipo de sociedade está sendo construída a partir desses avanços.
No artigo, o arcebispo cita tecnologias que prometem ampliar capacidades físicas e cognitivas, aproximando cada vez mais a relação entre seres humanos e máquinas. Ele argumenta que existe o risco de a dignidade da pessoa humana ser relativizada quando a tecnologia passa a ser vista como instrumento para modificar a própria natureza humana.
A reflexão acompanha um debate que vem ganhando espaço em universidades, empresas de tecnologia e centros de pesquisa ao redor do mundo. Com os avanços da inteligência artificial, da engenharia genética e dos implantes eletrônicos, cresce a discussão sobre até onde a tecnologia deve ir na tentativa de ampliar as capacidades humanas.
Para o líder religioso, a humanidade não deve ser medida pela eficiência das máquinas ou pelo poder dos algoritmos. No texto, ele defende que valores como consciência moral, responsabilidade ética, solidariedade e dignidade humana devem permanecer no centro das decisões sobre o desenvolvimento tecnológico.
Ao concluir sua análise, dom João destaca uma das mensagens centrais da encíclica papal. Na visão apresentada pelo documento, a tarefa mais importante diante das transformações provocadas pela inteligência artificial é preservar aquilo que caracteriza a própria condição humana.
O que são transumanismo e pós-humanismo?
Imagine uma pessoa instalar um chip no cérebro para aumentar a memória ou utilizar tecnologias capazes de ampliar sua inteligência, força física ou expectativa de vida. Essas possibilidades fazem parte de uma corrente de pensamento chamada transumanismo.
O transumanismo defende o uso da ciência e da tecnologia para melhorar as capacidades humanas e reduzir limitações impostas pelo envelhecimento, doenças ou pela própria biologia.
O pós-humanismo vai um passo além. Algumas de suas correntes acreditam que, no futuro, a tecnologia poderá transformar tão profundamente os seres humanos que as fronteiras entre homem e máquina se tornarão cada vez menores.
Para os defensores dessas ideias, os avanços tecnológicos podem trazer mais saúde, longevidade e qualidade de vida.
Já os críticos argumentam que existe o risco de a sociedade passar a enxergar o ser humano como algo que precisa ser constantemente aperfeiçoado, criando dilemas éticos e aumentando desigualdades.