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Álvaro Dias, um obstinado

A decisão do senador Rogério Marinho (PL) de retirar sua pré-candidatura ao Governo do Rio Grande do Norte e anunciar apoio ao ex-prefeito de Natal, Álvaro Dias (Republicanos) confirma um rearranjo político que vinha sendo construído com antecedência e reposiciona Álvaro como um dos protagonistas da eleição estadual.

Álvaro já era pré-candidato, mas corria na mesma faixa política de Rogério Marinho, disputando o mesmo campo eleitoral, os mesmos apoios e o mesmo espaço de poder. Não havia terreno para dois projetos competitivos. Com a saída de Rogério, essa sobreposição deixa de existir, e Álvaro passa a concentrar forças, alianças e expectativas de um grupo e agora tem a missão de efetivamente ter o engajamento na sua campanha.

Esse desfecho tem tudo a ver com a trajetória política de Álvaro Dias, marcada por sua capacidade de leitura de cenários, paciência estratégica e obstinação. Médico de formação, ele construiu sua carreira mostrando habilidade política. Começou a carreira no PMDB de Manoel Torres, de quem foi vice-prefeito em Caicó, mas seu primeiro grande salto ocorreu na Assembleia Legislativa, onde chegou ocupando um espaço que fora antes de seu pai. Lá, ele soube construir uma aliança que lhe permitiu presidir a Casa por três mandatos consecutivos. Até então não havia reeleição na presidência da Assembleia, mas ele conseguiu aprovar a mudança na Constituição Estadual para ficar na presidência por seis anos.

Depois, elegeu-se deputado federal, mas teve a reeleição inviabilizada pela regra da verticalização das coligações, que o obrigou a retornar à Assembleia Legislativa. Longe de significar um recuo definitivo, o movimento manteve Álvaro no centro das decisões políticas do Estado.

Um dos capítulos mais emblemáticos de sua trajetória veio na política municipal. Quando foi escolhido vice-prefeito de Natal, contrariou praticamente todas as previsões. Com origem política e bases eleitorais no Seridó e atuação concentrada no Legislativo estadual, poucos acreditavam que seu nome seria o escolhido. Álvaro, porém, fez a leitura correta do jogo interno do PMDB à época: sabia que Henrique Alves não aceitava Marcelo Queiroz, visto como uma indicação pessoal de Carlos Eduardo e não um quadro tradicional do partido, e que Carlos Eduardo, por sua vez, tinha restrições a Hermano Moraes após uma disputa municipal marcada por debates duros quatro anos antes. Apostou que o partido acabaria convergindo para seu nome — e acertou.

Ao aceitar a vice, Álvaro também enxergava além do mandato. Já contava com a possibilidade de Carlos Eduardo renunciar para disputar o Governo do Estado, o que lhe abriria caminho para assumir a Prefeitura do Natal. Foi exatamente o que ocorreu em 2018.

Como prefeito, Álvaro consolidou-se eleitoralmente. Em 2020, enfrentou uma oposição pulverizada, com 13 candidatos no páreo, e venceu ainda no primeiro turno com quase 57% dos votos, muito graças a sua atuação na pandemia a Covid.

Já em 2024, fez uma aposta arriscada, mas calculada ao apoiar Paulinho Freire, que largou mal nas pesquisas, mas acabou eleito. Com isso, ganhou os méritos pela eleição do seu sucessor e garantiu espaço político na administração municipal e, sobretudo, construiu a base de apoio necessária para viabilizar seu projeto estadual. Ficou ainda mais marcado por ter dito em diversas entrevistas que o ex-prefeito e ex-aliado Carlos Eduardo não iria para o segundo turno, mesmo ele tendo liderado as pesquisas durante muitos meses. O segundo turno foi entre Paulinho Freire e Natália Bonavides, candidata do PT da governadora Fátima Bezerra. 

No plano estadual, a engenharia se completou em 2025, quando Álvaro se alinhou a Rogério Marinho apostando que o senador teria voos mais altos na política nacional e, portanto, não seria candidato ao governo. O acordo previa exatamente o cenário que se confirmou agora. Rogério vai coordenar a campanha de Flávio Bolsonaro e fica fora da disputa majoritária estadual e Álvaro surge como o candidato natural do grupo.

Com isso, o tabuleiro eleitoral do Rio Grande do Norte passa a ter três projetos bem definidos. Allyson Bezerra, prefeito de Mossoró, representa a novidade geracional, com forte apelo popular e crescimento acelerado, especialmente no interior. Cadu Xavier surge como o nome do sistema governista, defendendo a continuidade administrativa, mas carregando o desgaste de uma gestão com dificuldades fiscais e baixa capacidade de investimento. Álvaro Dias, por sua vez, entra como o candidato da experiência, do gestor testado e da articulação política, representando um espectro ideológico, embora não seja um radical de direita, que tem um eleitorado cativo e de oposição ferrenha ao PT.

A retirada de Rogério Marinho confirma que, na política potiguar, a persistência de Álvaro Dias volta a colocá-lo no centro da disputa pelo poder estadual.

 


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