Terminar a leitura de Crônica da Banalidade, de Carlos de Souza, me trouxe muitos bons momentos à memória. O livro é um choque elétrico (com o perdão do trocadilho sobre o tema central da trama). Para mim, o impacto veio com um sabor particular: eu não tinha lido o livro quando foi lançado, originalmente, em 1988. Reencontro a obra agora, no seu relançamento, descobrindo nas páginas aquele que, na realidade, acompanhei de perto.
Trabalhei com Carlão na Tribuna do Norte e dividimos algumas noites da boemia natalense. Nos sábados saindo da redação, a parada certa era na casa dele, em Neópolis, em um tempo em que o filho, Alex, com quem vim a trabalhar anos depois no Novo Jornal, ainda era uma criança. Conheci o homem antes de mergulhar fundo no seu texto de estreia. E ver essa história voltar a circular é entender, com clareza cristalina, que o Carlão não apenas escreveu aquilo — ele viveu internamente aquela realidade mesmo que apenas no imaginário de um escritor e jornalista angustiado com a necessidade de ganhar o pão de cada dia fechando páginas modorrentas de notícias repetitivas e o escritor e criador que habitava dentro dele. Até o fim, ele recusou o cabresto e a marcha engrenada da vida ordinária.
A leitura de um fôlego só confirma o diagnóstico: Carlão era o nosso beatnik.
A escrita vem em jorro, sem pausas para respirar ou buscar coerência na narrativa. É uma prosa contínua que lembra a batida vertiginosa de Jack Kerouac em On the Road, na qual a pontuação se curva ao ritmo do pensamento. Mas há ali também a crueza e o desencanto de Charles Bukowski, misturados ao desespero e ao instinto de inadaptabilidade dos personagens de Jack London.
O que salta das páginas é o desespero sufocado de quem percebe a engrenagem do cotidiano tentar esmagar qualquer traço de poesia, dignidade ou liberdade. O protagonista prefere o delírio e a margem a ter que se render à banalidade da existência burguesa.
Carlão se foi, mas deixou uma trajetória inteiramente condizente com a sua arte. Ele viveu fugindo das engrenagens. Resgatar Crônica da Banalidade é honrar essa coerência brutal e garantir que o nosso beatnik continue a nos desassossegar.
Obrigado a Alex e a Abimael por trazerem de volta essa obra prima.