Domingo de manhã costuma ser um território imune à pressa. É o momento em que a casa silencia e a mente, finalmente sem a urgência dos compromissos formais, encontra espaço para o luxo da especulação gratuita. Foi num desses intervalos que me peguei com um volume dos Solilóquios nas mãos, Lendo o diálogo travado há mais de 1.600 anos entre Agostinho e a Razão.
Logo na abertura, a Razão o lança contra o espelho com uma provocação sumária:
— Tu, que queres conhecer-te a ti mesmo, sabes que existes?
— Sei — responde o bispo de Hipona.
— De onde o sabes?
— Não sei.
Na visão agostiniana, essa aparente limitação inicial guarda uma intuição profunda. A própria vontade de se questionar, essa inquietude de querer se autoconhecer, mesmo sem saber explicar de onde vem esse impulso, já é a prova cabal da existência da alma. Um punhado de matéria inanimada não deseja investigar a própria essência.
Ao escrever essa obra, Agostinho realizou uma das manobras mais geniais da história do pensamento. Ele bebeu na fonte do platonismo, mas não se limitou a repetir o mestre grego; refinou o dualismo de Platão e o fundiu com a tradição judaico-cristã. Ali nascia a matriz da subjetividade ocidental.
Foi Agostinho quem ensinou o Ocidente a olhar para dentro, legando uma herança que atravessaria a Idade Média até culminar, séculos mais tarde, no famoso "Penso, logo existo" (Cogito, ergo sum) de René Descartes.
É por isso que o contraste com o nosso tempo impressiona. Vivemos sob o império da ciência e dos algoritmos, em uma época que adora reduzir a consciência a uma simples faísca biológica, uma tese da neurociência segundo a qual o empilhamento de bilhões de conexões neurais acaba gerando a experiência do ser. Somos, na cartilha materialista, um computador de carne.
Mas há algo de profundamente insatisfatório nessa tese quando colocada diante da vida real.
É evidente que a ciência avançou a passos largos ao mapear o suporte físico do pensamento. Sabemos qual área do cérebro acende quando sentimos medo, quando lembramos da infância ou quando ouvimos uma boa música. O que a ciência não explica — e acredito jamais explicará olhando apenas para os tecidos — é por que existe um eu lá dentro experimentando tudo isso.
Neurônios disparam sinais elétricos, mas impulsos elétricos não têm o desejo de se autoquestionar, não buscam o sentido da justiça e não sofrem por amor.
O cérebro, com toda a sua fabulosa engenharia de sinapses, é o piano. Mas a alma continua sendo o músico. Você pode estudar a física acústica de cada tecla, mas nada disso explica a beleza da melodia sem o intérprete assentado ao banco, e sem ter quem sinta e aprecie o momento.
Muito antes da ciência estudar o cerébro e desvendar alguma coisa sobre o seu funcionamento, Agostinho percebeu que a vontade de conhecer a si mesmo não é um subproduto da engrenagem, mas a premissa de qualquer conhecimento. Por mais que a tecnologia mapeie os circuitos da nossa mente, o mistério do observador interior permanece intocado. E a resposta para quem somos não será encontrada num scanner cerebral, mas na capacidade de refletir sobre o axioma nenhuma coisa se faz ou se gera por si mesma, caso contrário, existiria antes de existir.
Mesmo para negar a alma, é preciso uma consciência primeira que experimente a própria dúvida.