Em 2026, o médico finalmente poderá olhar para o paciente sem desviar os olhos para a tela.
Pelo menos é isso o que promete o livro A Revolução da IA na Medicina. Os autores listam uma série de usos da Inteligência Artificial e um deles é que o médico não precisará mais anotar ou digitar o que o paciente diz e ficar olhando para a tela. Isso porque a tela aprendeu a escutar sozinha e fazer as anotações necessárias.
Enquanto o paciente fala da dor que “não chega a ser dor”, uma inteligência artificial anota tudo, organiza, codifica, e ainda sugere exames. No final ainda faz a fatura e a contabilidade para o profissional. O médico, aliviado, respira. O juramento de Hipócrates ganha um estagiário invisível.
Chamam isso de Escriba Autônomo. Um nome bonito para dizer que a burocracia, enfim, pegou um atalho.
O assombro, porém, não está no que a IA escreve. Está no que ela diz enxergar.
Segundo os autores, a IA encontra fraturas onde o olho humano vê apenas sombra. Identifica tecidos que não cicatrizam antes mesmo de a pele desistir. Antecipa doenças quando os sintomas ainda são só distrações socialmente aceitáveis. Compara milhões de casos enquanto os médicos ainda estão abrindo o prontuário.
Tudo isso impressiona. Talvez até demais.
Na indústria farmacêutica, o uso é “vendido” como um milagre. Medicamentos que levariam décadas surgem em meses, desenhados por algoritmos que testam moléculas como quem joga xadrez em velocidade sobre-humana. Ensaios clínicos são simulados com dados sintéticos. Pessoas que nunca existiram são simuladas para adoecerem e servirem de base para cálculos matemáticos e probabilísticos.
Tudo muito eficiente, elegante e revolucionário.
E otimista.
Porque a IA erra. Erra com convicção. Às vezes confunde contexto, às vezes generaliza demais, às vezes responde com uma segurança que faria corar antigos oráculos. Nós, humanos, também erramos, é claro, só que com mais apego às próprias certezas.
O que me deixa com a famosa pulga atrás da orelha não é a máquina que sabe tudo, mas a falta que faz duvidar. O humano irá mesmo conferir resultados, fazer perguntas incômodas, lembrar que nem toda previsão é destino ou vai aceitar tudo o que a máquina disser como uma verdade absoluta.
Se em poucos anos de uso intensivo a IA já é capaz de tudo isso, até onde poderá chegar na medicina. Conseguirá adiar o fim ou mesmo nos tornar imortais?
Eu tenho lá minhas muitas dúvidas. E as vezes tenho a sensação de que o que interessa de fato não é isso. Novas tecnologias sempre existirão. Como diz Gilberto Gil em Pela Internet 2:
Cada dia nova invenção
É tanto aplicativo que eu não sei mais não
What’s app, what’s down, what’s new
Mil pratos sugestivos num novo menu
O que importa é saber que, mesmo que a tecnologia prometa anos extras, ela ainda não resolve o que fazemos com o tempo que temos.
E você, o que acha? Seremos imortais?