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Rodin, tacos e algoritimos

Viajar sempre foi, para mim, uma forma de coleção. Não de ímãs de geladeira, embora admita que temos alguns, mas de histórias, sotaques, temperos e pequenos sustos. Sempre gostei de chegar a uma cidade como quem abre um livro novo e cheirar as páginas, conversar com pessoas da própria cidade, tentar compreender a língua, algumas mais fáceis, outras necessitando mais atenção e compreensão da sintaxe que a gente só percebem convivendo com a língua. Buscar os becos onde fatos históricos aconteceram e imaginar como seria a vida naquela época e também entrar em museus sem saber exatamente o que iria encontrar.

Anos atrás, desembarcar era um esporte radical. A gente saía do aeroporto ou da estação de trem com uma mochila, uma mala e muito raramente uma reserva com o voucher impresso. Às vezes ainda levava um mapa dobrado que mais parecia um origami mal resolvido, emprestado de algum conhecido ou parente que já tinha estado lá antes. Procurava um balcão de informações, perguntava a um taxista, errava o ponto, voltava duas quadras, descobria uma praça linda por acaso. Havia os “sufocos”: hotel lotado, metrô na direção errada, descida na estação errada, restaurante fechado. E havia também o prêmio que era descobrir o café escondido na rua lateral, a conversa inesperada, o museu que não estava no guia.

Depois vieram os blogs, os vídeos, o Google. Já se saía de casa com uma lista de “imperdíveis” milimetricamente organizada. O improviso perdeu um pouco de espaço, mas ainda havia aquele momento de abrir um mapa na praça e decidir o dia olhando para as linhas coloridas do metrô.

Hoje, os mapas sumiram das cidades. Migraram todos para dentro do celular. A gente não se perde mais. Ou melhor, ainda se perde porque as vezes é mais difícil entender os caminhos do google maps do que se orientar por um mapa de papel. Sem contar quando se está andando e cai a conexão. Ainda bem que resta a velha história: Quem tem boca via a Roma.

Na minha viagem recente à Cidade do México, percebi que cruzamos uma nova fronteira. Antes mesmo de embarcar, eu já sabia o que queria ver, quais bairros visitar, que pratos provar. Mas a grande virada não foi essa. Foi outra.

Em vez de abrir um guia, eu abria a inteligência artificial. Dizia quantos dias tinha e ela devolvia um roteiro sob medida: museus pela manhã, mercados à tarde, um parque no fim do dia. Informava se valia a pena ir a pé, de metrô ou por aplicativo. Calculava tempos, sugeria desvios, encaixava um café entre um monumento e outro. Eu, que já me orgulhei de decifrar mapas em línguas que mal compreendia, agora seguia uma voz invisível que conhece a cidade melhor do que seus visitantes.

Confesso que senti um certo saudosismo. A incerteza tinha charme. Havia algo de aventureiro em não saber exatamente o que viria depois da próxima esquina.

Mas então aconteceu o que me fez rever a nostalgia.

No Museu Soumaya, aquele prédio prateado que parece uma escultura futurista, subi ao andar dedicado a Auguste Rodin. As peças estavam ali, imponentes, mas as informações eram discretas, quase tímidas. Até procurei um folheto, mas o máximo que encontrei um QRCode que lhe deixa mais perdido e toma mais tempo procurando o número das obras para lhes identificar melhor.

Resolvi fazer diferente. Fotografei as obras que mais me impressionavam e enviei à IA. Em segundos, ela me devolvia uma ficha completa: data, material, contexto histórico. Quando parei diante de “Os Burgueses de Calais”, ela explicou o drama da cidade sitiada, a tensão política, o gesto de sacrifício coletivo que inspirou Auguste Rodin a eternizar as expressões de horror daqueles franceses que se entregaram aos ingleses para evitar o massacre total. Aquilo em bronze é realmente impressionante. E a IA ainda perguntava: “Quer saber mais sobre o contexto da guerra entre França e Inglaterra?” Quase uma professora particular ao meu lado.

A tecnologia não estava roubando a experiência. Estava ampliando.

Continuo gostando de conversar com moradores, de perguntar qual é o prato mais pedido, de ouvir histórias que não cabem em algoritmo algum. Continuo entrando em museus para sentir o silêncio das salas e o peso da história. Mas agora carrego no bolso uma espécie de bibliotecária invisível, pronta para me contar detalhes que talvez eu nunca descobrisse sozinho.

Viajar com IA não é o fim do improviso. É um novo tipo de improviso. Ainda há surpresas, só que elas vêm acompanhadas de contexto.

E no fundo, continuo fazendo a mesma coisa de sempre, conhecendo culturas, sabores, rostos e narrativas. Só que agora, entre um taco e uma escultura de bronze, há uma inteligência silenciosa sussurrando no meu ouvido: “Quer ir mais fundo?”

Eu, curioso, respondo: quero. O problema é que tem horas que a gente tem que parar para ir para o próximo destino.

 


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