O Rio Grande do Norte está entre os estados onde foram registradas apreensões analisadas por um estudo do Instituto Sou da Paz sobre a origem das munições utilizadas pelo Comando Vermelho. O levantamento identificou que mais da metade das munições nacionais rastreadas havia sido vendida originalmente às Forças Armadas ou a órgãos de segurança pública antes de chegar às mãos de integrantes da facção.
A pesquisa não conclui que policiais ou militares forneceram munições diretamente ao crime organizado. O que os pesquisadores fizeram foi rastrear lotes apreendidos por meio de códigos de identificação gravados nas embalagens e nos cartuchos, permitindo descobrir para quem aquele material havia sido comercializado originalmente.
Segundo o estudo, 51,9% das munições nacionais com origem identificada tinham como destino inicial instituições públicas. A partir daí, porém, o material pode ter sido alvo de roubos, furtos, extravios ou outros tipos de desvio ao longo da cadeia de custódia.
Outro dado que chamou a atenção dos pesquisadores foi a presença de munições relativamente novas. Quase metade das munições nacionais cuja data de fabricação pôde ser identificada havia sido produzida até dois anos antes da apreensão. Para os autores, o resultado sugere falhas recentes de controle e abastecimento contínuo das organizações criminosas.
Embora a maior parte dos casos analisados esteja concentrada no Rio de Janeiro, o levantamento mostra que a circulação de armas e munições associada ao Comando Vermelho já alcança diversos estados brasileiros. O Rio Grande do Norte aparece nesse mapa de apreensões, refletindo a expansão nacional da facção nos últimos anos.
O estudo também aponta que as maiores apreensões ocorrem quando as forças de segurança conseguem interceptar carregamentos ou depósitos antes que o material seja distribuído aos criminosos. Para os pesquisadores, fortalecer a rastreabilidade e o controle dos estoques públicos pode ter impacto maior do que apreensões realizadas após a munição já estar em circulação.
Retranca | O que é o Instituto Sou da Paz
O Instituto Sou da Paz é uma organização da sociedade civil criada em 1999 e voltada à formulação de políticas públicas de segurança. A entidade desenvolve pesquisas sobre violência, armas de fogo, munições, prevenção ao crime e gestão das forças de segurança, além de acompanhar projetos de lei e propor medidas de controle e rastreamento de armamentos. O instituto é uma das principais referências nacionais em estudos sobre circulação de armas e munições e frequentemente produz levantamentos utilizados por pesquisadores, gestores públicos e órgãos de segurança.