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O segredo dos cem anos que ninguém descobriu

Vivemos a época em que envelhecer virou uma obsessão. Temos que nos cuidar para ter uma velhice com qualidade de vida. Isso é o que nos dizem com intensidade sem igual as redes sociais cheias de especialistas ensinando como chegar à velhice com o corpo funcionando como uma máquina revisada.

Tem a poupança de músculos. Tem a reserva cognitiva. Tem o alimento anti-inflamatório. Tem a higiene do sono. Tem sempre alguém ensinando que basta seguir dez passos, tomar cinco suplementos e abandonar três prazeres da vida (e sempre o último vai te surpreender) para negociar alguns anos a mais com o tempo. A longevidade parece que hoje em dia é uma questão de formular planilhas e seguir um planejamento estratégico que estará tudo bem.

Aí aparece Dom Heitor de Araújo Sales completando cem anos e desmontando, sem querer, essa enorme indústria de fórmulas para viver mais.

Ao longo de um século, Dom Heitor viu o mundo mudar de uma forma que poucos testemunharam. Acompanhou seis pontificados. Viveu os papados de Paulo VI, João Paulo I e João Paulo II quando ainda era bispo de Caicó e arcebispo de Natal. Já como arcebispo emérito, acompanhou Bento XVI, Francisco e agora Leão XIV.

Viu a Igreja mudar, viu a tecnologia transformar a vida cotidiana, viu guerras terminarem, outras começarem, viu a humanidade inventar máquinas capazes de conversar e ainda não conseguiu encontrar uma explicação definitiva para a pergunta mais antiga: por que alguns chegam aos cem anos e outros não?

O próprio Dom Heitor admite que não sabe o segredo da longevidade. Quando perguntam, ele não fala em academia, suplementos ou fórmulas para preservar músculos. Fala em generosidade, amizade, gratidão e na maneira como cada pessoa escolhe viver.

É uma resposta que parece simples demais para os tempos atuais, mas também seria simplificar demais dizer que a fé, a generosidade ou uma vida dedicada ao próximo são a explicação para chegar aos cem anos. Existem pessoas profundamente religiosas que não passaram dos 80. Existem homens e mulheres generosos que partiram cedo. A vida não funciona como uma contabilidade em que boas ações garantem mais tempo de existência, embora seja bem mais difícil encontrar entre os centenários pessoas mesquinhas, egoístas e sem fé e esperança num futuro nesta ou em outra vida.

Da mesma forma, cuidar do corpo, fazer exercícios e estimular o cérebro não são promessas de eternidade. São hábitos que aumentam possibilidades, não garantias.

O Rio Grande do Norte tem 976 centenários, segundo o Censo. São 679 mulheres e 297 homens. Uma estatística que mostra que o maior segredo da longevidade continue sendo nascer mulher, algo que nenhum influenciador conseguiu transformar em curso ou vídeos com cinco passos para te segurar até o fim das postagens e garantir o engajamento a ser monetizado.

A verdade é que cada centenário carrega uma história impossível de resumir em uma receita. Alguns chegam aos cem anos depois de uma vida de disciplina. Outros chegam sem nunca terem ouvido falar em dieta personalizada, aplicativo de saúde ou relógio que mede qualidade do sono.

Dom Heitor não parece interessado em descobrir como venceu o tempo. Ele fala em ser aquilo que Deus deseja que ele seja, em ajudar outras pessoas e conservar boas amizades.

A diferença entre Dom Heitor e os especialistas das redes sociais é que enquanto eles prometem anos a mais, ele fala sobre o que fazer com os anos que recebemos. Ele não sabe o segredo para viver tantos anos, mas sabe que existem coisas que prolongam os dias e outras que dão sentido a eles. E uma nem sempre substitui a outra.

É isso que os manuais de longevidade ainda não conseguiram medir. O corpo pode ser treinado. O cérebro pode ser estimulado. A saúde pode ser cuidada. Mas ainda não inventaram uma tomografia que possa medir a qualidade de uma vida.


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