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O inventário da maldade

Na última quarta-feira, a Cidade da Polícia, em Natal, tornou-se o palco onde o horror ganhou contornos de burocracia. O delegado Márcio Silva Lemos detalhou o que as investigações já confirmaram: a pequena Pétala Yonah Silva Nunes, de apenas 7 anos, não foi vítima de um infortúnio, mas de um projeto do seu ex-padrasto, que premeditou o crime. O motivo, tão antigo quanto a própria tragédia humana, era a vingança. Incapaz de lidar com o fim do relacionamento com a mãe da criança, o homem decidiu que a melhor maneira de a ferir seria arrancando-lhe o motivo de viver. O que se seguiu foi uma sucessão de versões contraditórias tentando, com a covardia de quem teme o julgamento das ruas, pintar sua própria infâmia com cores que fossem menos repelentes à sociedade.

À crônica desta semana, interessa menos o relato policial e mais a pergunta que nos persegue há milênios, muito além do que qualquer laudo do ITEP pode responder: o que, afinal, faz um ser humano ser humano?

Temos o hábito de atribuir a crueldade absoluta à falta de humanidade, como se o monstro fosse uma espécie à parte, um erro de cálculo da natureza. Mas a verdade, talvez insuportável, é que a capacidade de odiar com tamanha precisão é uma característica terrivelmente humana. A empatia, o cuidado, e o zelo pelo próximo são as virtudes que precisamos cultivar, ensinar e proteger com unhas e dentes, pois são elas que nos mantêm afastados do abismo.

O homem que planeja o fim de uma criança para castigar um adulto não é um alienígena; ele é a prova da falência de tudo o que nos civilizou. Ser humano é, acima de tudo, a capacidade de reconhecer no outro o mesmo valor que reconhecemos em nós mesmos. Quando essa capacidade é substituída pelo egoísmo utilitário, quando o outro, especialmente uma criança, passa a ser apenas um instrumento ou um objeto de punição, a humanidade se esvazia.

O sujeito, cujo nome a história já descartou como algo que não merece ser memorizado, achou que a vida alheia era uma extensão de sua própria frustração. O delegado, acostumado a ver o abismo no fundo dos olhos de quem cruza a porta da delegacia, chama isso de "vicariato". Nome técnico, frio, que tenta encaixar a crueldade em um inciso de lei. Mas na crônica da vida, o nome é outro: é a falência absoluta do humano.

Há, nas entrelinhas do relato policial, o medo do assassino. Não o medo da justiça, esse ele diz não ter, mas o medo da represália. É o retrato da nossa sociedade: o assassino teme o julgamento coletivo. É uma justiça primitiva, talvez, mas que floresce onde o Estado parece, por vezes, um espectador distante.

Pétala não teve a chance de viver, além da infância. Não há final feliz para esse texto. Não há a volta por cima, nem a lição moral que conforta. Há apenas a constatação amarga de que, às vezes, o monstro não mora debaixo da cama; ele mora na casa ao lado, almoça com a gente, e, no escuro do seu quarto, desenha num papel o fim de tudo aquilo que a gente ama.

Resta-nos a pergunta, que ecoa vazia nas ruas do Guarapes: se a maldade é humana, qual é a nossa parte de responsabilidade em permitir que ela floresça, silenciosa, atrás da porta do vizinho, enquanto nos perdemos na superficialidade do cotidiano?

Talvez o que nos torna humanos não seja a nossa capacidade de raciocinar, mas a nossa capacidade, geralmente negligenciada no noticiário frio dos jornais, de chorar pela dor de quem não conhecemos.

 


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