A crise entre Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro deixou de ser apenas uma disputa familiar e política para expor uma divisão inédita dentro do bolsonarismo. A principal consequência, até agora, tem sido a mudança de alvo da militância digital ligada à direita, que passou a concentrar ataques na ex-primeira-dama e em suas principais aliadas. Michelle que usou e abusou da radicalização contra os adversários, inclusive chamando Lula de cachaceiro em um evento em Natal, agora é vitimas de ataques também violentos da militãncia bolsonarista.
Levantamento da consultoria Bites, obtido pelo jornal O Globo, mostra que cerca de um terço das 300 mil menções feitas a Michelle Bolsonaro nas redes sociais desde 27 de junho teve conteúdo negativo. Nos cinco dias analisados, mais de 100 mil publicações trouxeram críticas ou ofensas à ex-primeira-dama.
As mensagens passaram a utilizar termos como "traidora", "feminista" e "Dona Michelle", em tom irônico, além de resgatar seu nome de solteira, Michelle Firmo. Também entraram na mira mulheres que integram seu grupo político, como as senadoras Damares Alves e Tereza Cristina e a governadora do Distrito Federal, Celina Leão.
Nos primeiros dias da crise, após Michelle divulgar vídeos acusando Flávio Bolsonaro de tê-la tratado mal, parte da militância chegou a defendê-la. Com o aprofundamento do conflito e sua saída da presidência do PL Mulher, influenciadores e lideranças bolsonaristas passaram a criticá-la publicamente.
Entre os nomes que aderiram aos ataques estão Allan dos Santos, Paulo Figueiredo, Oswaldo Eustáquio e a deputada Bia Kicis. O episódio mostra que a mesma estrutura de mobilização digital que durante anos foi utilizada contra adversários políticos passou a atuar contra integrantes do próprio grupo.
A reação chegou ao Senado. Em discurso na Comissão de Direitos Humanos, Damares Alves afirmou que Michelle se tornou o principal alvo de uma campanha de ataques contra mulheres de direita. A senadora disse que também passou a receber ofensas e ameaças depois de sair em defesa da ex-primeira-dama.
Segundo Damares, ela foi chamada de "vagabunda", "adúltera" e "leviana" nas redes sociais. A parlamentar afirmou ainda que criminosos divulgaram montagens simulando sua morte e a de sua filha, além de mensagens com ameaças dirigidas às duas.
Para o diretor técnico da Bites, André Eler, os dados indicam que parte da direita passou a considerar legítimo atacar Michelle Bolsonaro e seu grupo político. Na avaliação dele, a mudança revela uma disputa interna que já produz desgaste entre lideranças que até pouco tempo ocupavam o mesmo campo político.
A crise expõe uma inversão de papéis dentro do bolsonarismo. As redes que ajudaram a impulsionar Jair Bolsonaro e seus aliados, frequentemente marcadas por campanhas agressivas contra adversários, agora são usadas em uma disputa pelo comando do próprio movimento. Michelle Bolsonaro tornou-se alvo de um método que durante anos atingiu opositores e até antigos aliados do ex-presidente.
Racha virou marca registrada do bolsonarismo
A disputa entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro é apenas o episódio mais recente de uma série de rompimentos públicos dentro do bolsonarismo, quase sempre marcados por acusações graves e ataques pessoais.
Em maio, o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles entrou em rota de colisão com Eduardo Bolsonaro durante a disputa por uma vaga ao Senado em São Paulo. Salles acusou o deputado de fazer "bravatas" dos Estados Unidos e insinuou que ele teria desistido da candidatura em troca de um acordo político. Também acusou o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, de corrupção em indicações para o Ministério dos Transportes. Eduardo reagiu afirmando que Salles estava "curtindo postagem do PT" e o acusou de atacar o próprio grupo por interesse eleitoral. O conflito levou Valdemar a apresentar uma queixa-crime contra Salles no Supremo Tribunal Federal.
Outro rompimento de grande repercussão envolveu o ex-chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência Fábio Wajngarten. Mensagens reveladas em 2025 mostraram que ele ironizava a possibilidade de Michelle Bolsonaro disputar a Presidência e concordava com a frase "prefiro Lula" diante dessa hipótese. Após a divulgação das conversas, Michelle articulou sua demissão do PL, encerrando uma relação de anos com um dos auxiliares mais próximos de Jair Bolsonaro.