Por Heverton de Freitas
Querido Papai Noel,
Esta é minha segunda carta em mais de sessenta anos. A primeira foi escrita recentemente, sob supervisão rigorosa da minha neta. Clara ainda não sabe escrever, mas sabe exatamente o que quer. Ela falava, eu sugeria alguns detalhes e, aprovado o texto final, escrevia, tentando acompanhar a seriedade da missão porque carta para Papai Noel não admite erros. É muita responsabilidade, ainda mais depois de tanto tempo. Cada palavra precisa estar no lugar certo.
Confesso que fazia tempo que eu não escrevia nada à mão com tanta atenção. Em tempos de mensagens rápidas, Inteligência Artificial, e respostas automáticas, segurar uma caneta virou quase um ato revolucionário. Ainda mais quando o texto precisa atravessar os continentes.
Enquanto ela ditava os pedidos, fui lembrando de coisas importantes. Que brinquedo nunca é “só um brinquedo”. Que acreditar não é perda de tempo. E que esperança é coisa importante na vida, não importa se pequena e concreta, ou se aquelas enormes que precisam nos acompanhar no curso da existência.
Quando terminamos a carta dela, algo estranho aconteceu. Eu fiquei com vontade de escrever outra. Não porque precisava de alguma coisa urgente, mas porque, depois de tanto tempo, voltei a acreditar que você ainda lê cartas. E se lê as das crianças, talvez aceite dar uma espiada nas dos adultos arrependidos de ter parado de escrever.
A minha carta é mais curta. Não peço muita coisa. Peço apenas que você continue existindo. Que continue fazendo crianças acordarem cedo no dia 25, correrem para a árvore e acreditarem que alguém passou por ali durante a noite. Isso já resolve muita coisa.
Peço também Papai Noel, se não for abuso, um pouco mais de tempo, para fazer castelos de areia que as ondas desmancham. Manda também tempo para ouvir histórias que sempre começam com “você sabe que…” e seguem por caminhos misteriosos sobre a vida dos amigos de pelúcia que voam, gostam de comer isso ou aquilo, além de contarem histórias incríveis no ouvido da neta que corre para me informar. Alguns são personagens modernos, lançamentos recentes da indústria do entretenimento que muitas vezes não conheço. Mas finjo intimidade. Ouço sério com cara de surpresa para no momento certo perguntar “foi mesmo?”.
Se ainda couber, pode mandar fôlego para cantarolar músicas com letra trocada e a outra neta, ainda bebê, no colo, enquanto ela balança a cabeça e agita os braços como que aprovando o momento e a voz desafinada.
No fundo, desconfio que isso tudo é o plano secreto da vida. A gente passa anos tentando virar adulto e, quando consegue, vira avô e começa tudo outra vez. Volta a brincar no chão, a rir do nada e a acreditar com facilidade.
Então é isso, Papai Noel. Boa viagem. Esperamos você por aqui renovando nossas esperanças de que a inocência ainda vale a pena.
PS: Aqui no meu prédio não tem chaminé. A varanda está com rede de proteção, coisa de avô responsável, mas fica à vontade para entrar pela janela da área de serviço.
Não precisa trazer nada embrulhado. Se trouxer tempo, areia, música e essas pequenas magias do dia a dia, já está mais do que bom.
Eu prometo acreditar.