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Bispos excomungados

Aconteceu o que o Vaticano havia anunciado. A Fraternidade Sacerdotal São Pio X manteve a consagração de quatro novos bispos sem autorização do papa e, um dia depois da cerimônia realizada em Écône, na Suíça, Leão XIV cumpriu o que havia advertido nas últimas semanas. Um decreto do Dicastério para a Doutrina da Fé declarou excomungados os quatro bispos recém-consagrados e os dois bispos que presidiram a cerimônia, classificando a ordenação como "um ato de natureza cismática". Trata-se da punição mais grave prevista pela Igreja Católica e de uma medida raríssima na história recente do catolicismo.

A decisão encerra, ao menos por enquanto, décadas de tentativas de reconciliação entre Roma e o movimento fundado pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre. Desde o fim dos anos 1980, sucessivos papas procuraram restabelecer a plena comunhão com a Fraternidade, mas a ordenação de novos bispos sem mandato pontifício foi considerada pelo Vaticano uma ruptura aberta com a autoridade do sucessor de Pedro.

Para o católico comum, a palavra excomunhão costuma ser associada apenas a uma punição religiosa. Seu significado, porém, é mais amplo. A excomunhão rompe a comunhão jurídica e eclesial entre a pessoa e a Igreja. O excomungado continua sendo batizado e continua responsável por sua fé, mas deixa de participar plenamente da vida da Igreja até que haja reconciliação.

No caso dos bispos e sacerdotes, as consequências são imediatas. Eles deixam de exercer legitimamente qualquer autoridade em nome da Igreja Católica. Não podem ocupar cargos eclesiásticos nem exercer o ministério em comunhão com Roma. Embora continuem sendo bispos e sacerdotes do ponto de vista sacramental, passam a agir sem o reconhecimento da autoridade da Igreja.

O decreto divulgado nesta quinta-feira vai além. Em nota explicativa, o Dicastério para a Doutrina da Fé afirma que todos os ministros da Fraternidade São Pio X se encontram em situação de cisma. Também declara que eles administram os sacramentos de forma ilícita e que as confissões e os casamentos celebrados por seus sacerdotes são inválidos. O Vaticano orienta os fiéis a não participarem das celebrações promovidas pela Fraternidade.

Para os leigos, a situação é diferente. A Santa Sé esclarece que a excomunhão não atinge automaticamente quem frequenta uma missa do grupo. A pena alcança aqueles que aderem formalmente à Fraternidade e ao cisma, rompendo conscientemente a comunhão com a Igreja Católica.

Grupo ultraconservador

A crise que culminou no decreto começou há mais de meio século. A Fraternidade Sacerdotal São Pio X foi fundada em 1970 por Marcel Lefebvre como reação às reformas aprovadas pelo Concílio Vaticano II. O grupo rejeitou mudanças como a celebração da missa nas línguas locais, o fortalecimento do diálogo com outras religiões e diversos aspectos da renovação litúrgica e pastoral promovida pela Igreja.

Em 1988, Lefebvre decidiu ordenar quatro bispos sem autorização do papa João Paulo II. O gesto provocou um dos maiores conflitos internos da Igreja no século XX e levou à excomunhão do arcebispo e dos novos bispos. Anos depois, Bento XVI retirou essa excomunhão como gesto de boa vontade para facilitar as negociações. A reconciliação, porém, nunca foi concluída porque persistiram divergências sobre a interpretação do Concílio Vaticano II e sobre a submissão da Fraternidade à autoridade do papa.

Nos últimos meses, Leão XIV tentou evitar uma nova ruptura. O Vaticano promoveu reuniões com dirigentes da Fraternidade, propôs a retomada do diálogo teológico e o próprio papa enviou uma carta pedindo que a cerimônia fosse cancelada. Nada disso impediu que as ordenações fossem realizadas em 1º de julho.

A decisão desta quinta-feira representa, na prática, a repetição da crise de 1988. Pela segunda vez, Roma declara que bispos ligados à Fraternidade romperam a comunhão com a Igreja ao desafiar diretamente a autoridade do papa em uma das atribuições consideradas exclusivas do pontífice, a nomeação de novos bispos.

Apesar disso, a Fraternidade São Pio X não se considera uma igreja separada nem pretende fundar uma nova religião. Seus integrantes afirmam permanecer católicos, reconhecem a sucessão apostólica, celebram a missa e professam a maior parte da doutrina católica. O Vaticano, porém, entende que a unidade da Igreja depende não apenas da profissão de fé, mas também da comunhão efetiva com o papa. Ao ordenar bispos contra uma proibição expressa do pontífice, a Fraternidade, segundo a Santa Sé, voltou a colocar-se fora dessa comunhão.

Essa é a principal diferença em relação às demais comunidades cristãs. Igrejas protestantes e ortodoxas constituem tradições religiosas autônomas há séculos. A Fraternidade São Pio X continua afirmando que pertence à Igreja Católica, mas, para o Vaticano, seus dirigentes escolheram permanecer fora da comunhão com Roma enquanto não reconhecerem plenamente a autoridade do papa e as condições estabelecidas pela Santa Sé para uma reconciliação.


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