Tem coisas da infância que ficam marcadas para sempre. Aquela mesa na cozinha onde dividíam o jantar feito pela mãe com arroz, feijão, farinha, bife e uma salada — sim, naquela época, se comia feijão e farinha no jantar e não fazia mal — é o que mais marcou. Não era a comida, era o pós-janta. Tiradas as panelas, os pratos e talheres, a mesa se transformava em um ambiente de trabalho. De um lado, ele fazia os relatórios sobre as visitas e as vendas realizadas no dia, para entregar à chefia na manhã seguinte. De outro, a criança fazia seus deveres de casa.
Tantos e tantos anos passados, aquele jovem, com menos de 30 anos e já com aquela responsabilidade de sustentar uma casa, dois filhos e uma vida de hábitos que hoje poderiam ser considerados espartanos, e a criança, maravilhada com o aprendizado e com as brincadeiras, formam um quadro vivo na memória.
O relatório era uma coisa séria, quase uma liturgia. Mas, entre uma soma no relatório e um erro de português no caderno da criança, ele subitamente esquecia a chefia, o estoque e a pressa. Os dedos começavam a percorrer o tampo de fórmica com uma cadência hipnótica. Era um batuque sincopado, o som de uma Bahia que ele trazia dentro de si, um som que misturava o folclore do litoral, que ele não conhecia, com a dura realidade do interior onde a seca castigava e forçava famílias inteiras a deixar sua terra natal. Ele tinha partido junto com o pai, a mãe e outros 11 irmãos, em busca de oportunidades e uma vida melhor na São Paulo que crescia com a industrialização do país.
— Eu não sou daqui, marinheiro só. Eu não tenho amor, marinheiro só, eu sou da Bahia, marinheiro só, de São Salvador. Ele cantarolava.
A criança nem sabia direito o que era ser um marinheiro, nem tampouco conhecia muitas das histórias que foi sabendo ao longo dos anos contadas pelos tios mais velhos. Mas mantinha o dueto à mesa. Ele cantava as frases, a criança repetia o refrão, deixando o dever de casa um pouco de lado.
Depois, entrava Luiz Gonzaga. "São doze “fiinho”, é muito pouco e quase nada.". Essa sim uma letra que falava direto com a realidade vivida por ele. De quem tinha passado a infância montando a cavalo, levando a boiada. A criança ouvia sem compreender o peso, nem muitas das palavras: invernada? cancela da morada? Coisas estranhas para uma criança da cidade grande que desconhecia aquela contabilidade familiar e aquele jeito de falar.
Gonzagão escreveu são dez fiiinho, mas ele adaptava para doze. Ele e mais onze irmãos. Para ele, cantar aquele verso era mais do que o lamento de um boiadeiro. Na verdade, era um resumo da infância. Ele tinha orgulho daquela multidão com a qual partiu do interior da Bahia para enfrentar sete dias de estrada, um exército de gente que soube sobreviver dividindo a mesa e a comida entre eles.
A criança de outrora olha para trás e vê aquele jovem, com suas camisas engomadas e a energia de quem saia às ruas todo dia dispostos a vender seus produtos e convencer os médicos a receitar os remédios que representava. Ele não sabia, mas ao batucar na mesa da cozinha, ele dava a lição mais importante da vida escolar da criança. O trabalho garante o pão, mas é o ritmo, a música e a memória que garantem que a gente não vire apenas mais um número no relatório de alguém.
Hoje, quando chega o dia dos Pais, fecho os olhos por um segundo e o silêncio da casa é interrompido por um tamborilar involuntário dos dedos. É o meu pai, batucando em algum lugar do tempo, lembrando-me de que a vida só faz sentido se a gente souber cantar enquanto o mundo nos cobra resultados.