Papa convoca primeiro Consistório extraordinário do pontificado em meio a desafios de unidade da Igreja
A convocação do primeiro Consistório extraordinário do pontificado, marcada para os dias 7 e 8 de janeiro de 2026, no Vaticano, ocorre em um momento sensível da vida da Igreja Católica e carrega um significado que vai além do rito institucional. O encontro reunirá todos os cardeais do mundo para dois dias de reflexão, oração e partilha sobre os rumos da Igreja universal.
Segundo a Sala de Imprensa da Santa Sé, o objetivo do Consistório é promover um discernimento comum e oferecer apoio e conselhos ao Papa no exercício de sua responsabilidade como Bispo de Roma. Trata-se de um dos instrumentos mais amplos de consulta formal do Colégio Cardinalício e costuma ser reservado para momentos em que o Papa busca alinhar prioridades e ouvir diferentes realidades da Igreja espalhadas pelos continentes.
O último Consistório extraordinário havia sido realizado em agosto de 2022, ainda no pontificado de Francisco, quando os cardeais foram chamados a discutir aspectos da reforma da Cúria Romana. Desde então, encontros desse tipo tornaram-se raros, o que reforça o peso institucional da decisão agora anunciada.
Ao convocar um Consistório extraordinário logo no início do pontificado, o Papa sinaliza um estilo de governo que aposta na colegialidade e na escuta ampla. Mais do que um gesto simbólico, a iniciativa sugere a intenção de envolver o Colégio Cardinalício nas grandes reflexões estratégicas, num cenário em que a Igreja enfrenta desafios internos e externos cada vez mais complexos.
Entre esses desafios está a polarização interna, visível em debates teológicos, pastorais e disciplinares que atravessam a Igreja nos últimos anos. Tensões entre diferentes correntes, leituras divergentes do Concílio Vaticano II e visões distintas sobre temas morais e litúrgicos têm marcado o ambiente eclesial. Nesse contexto, a reunião de todos os cardeais pode ser interpretada como uma tentativa de reforçar a unidade e buscar pontos de convergência, sem negar a diversidade de experiências e sensibilidades.
O momento escolhido também não é aleatório. O Consistório ocorrerá logo após o encerramento do Jubileu de 2025, um período fortemente marcado por apelos à conversão, à reconciliação e à esperança. A leitura interna no Vaticano é de que o encontro pode funcionar como uma ponte entre o ciclo jubilar e a consolidação das prioridades do novo pontificado.
Embora os conteúdos das discussões não sejam totalmente públicos, a experiência histórica mostra que Consistórios extraordinários costumam influenciar diretamente a orientação de um pontificado, seja na definição de agendas pastorais, seja na condução de reformas ou no modo como o Papa se relaciona com o episcopado mundial.
Mais do que um evento protocolar, o Consistório de janeiro se apresenta como um espaço de escuta e alinhamento em um momento decisivo para a Igreja, marcada por transformações profundas e pela necessidade constante de preservar a comunhão em meio às diferenças.
ENTENDA O QUE É UM CONSISTÓRIO
O Consistório é uma reunião formal do Papa com o Colégio Cardinalício para tratar de temas ligados ao governo da Igreja Católica. Esses encontros fazem parte da tradição da Igreja e funcionam como um espaço de consulta, orientação e tomada de decisões.
Existem dois tipos principais de Consistório.
O ordinário reúne, em geral, os cardeais que residem em Roma e costuma tratar de assuntos específicos, como a criação de novos cardeais ou o voto em causas de canonização. O Consistório para a criação de cardeais é classificado como ordinário público.
Já o extraordinário envolve todos os cardeais do mundo e é convocado em momentos considerados relevantes para a vida da Igreja. Nesse formato, o Papa promove uma escuta mais ampla do Colégio Cardinalício, incentivando a reflexão conjunta sobre desafios pastorais, institucionais e missionários da Igreja universal.
Embora não tenha caráter deliberativo obrigatório, o Consistório extraordinário é visto como um dos instrumentos mais fortes de colegialidade e costuma influenciar diretamente as orientações e prioridades de um pontificado.
O que sinaliza o Papa
A publicação da exortação apostólica “Dilexi te” com ênfase nos pobres, na dignidade humana e na responsabilidade social da Igreja, somada a viagens internacionais marcadas pelo estímulo ao diálogo com outras Igrejas e religiões, como a visita à Turquia, com encontros ecumênicos e inter-religiosos, ajuda a situar o tom inicial do novo pontificado.
Esses gestos indicam uma possível opção pela continuidade de temas centrais do magistério de Francisco, especialmente no campo social e pastoral. Ao mesmo tempo, a convocação de um Consistório extraordinário logo no início do governo sugere uma preocupação em ampliar os espaços de escuta institucional e de participação do Colégio Cardinalício nas reflexões sobre os rumos da Igreja.
Nesse contexto, a iniciativa é lida por alguns vaticanistas como uma tentativa de lidar com um ambiente eclesial marcado por tensões internas e leituras divergentes sobre o papel da Igreja no mundo contemporâneo. Ao reforçar instrumentos clássicos de colegialidade, o Papa busca um método de condução que privilegie o diálogo e o discernimento coletivo.
A combinação entre continuidade no magistério e abertura no modo de governar aponta para um esforço de reduzir polarizações não por meio de rupturas ou mudanças abruptas de orientação, mas pela integração das diferentes sensibilidades no processo de reflexão e decisão.
Heverton de Freitas