Dezembro chega ao seu final sem pedir licença, com essa mania de querer virar a página mesmo quando o livro segue aberto. A gente finge que faz um balanço racional do ano, mas no fundo só tenta organizar o barulho. Manchetes, conversas atravessadas, promessas não cumpridas e aquela sensação incômoda de que tudo aconteceu rápido demais e, ao mesmo tempo, não saiu muito do lugar.
Em 2025, o noticiário global seguiu cumprindo seu papel de nos lembrar que a humanidade anda em obras há séculos e sem previsão de entrega. Tarifações cruzando oceanos como novas muralhas comerciais, a guerra na Ucrânia persistindo como uma ferida aberta no mapa da Europa, a Faixa de Gaza voltando a ser sinônimo de bombardeio e luto, a Venezuela presa num enredo que mistura poder, fronteiras e desconfiança. Tudo isso passou pelos nossos olhos quase como ruído de fundo, citado de passagem, porque a tragédia, quando se repete, corre o risco de virar rotina.
No Brasil, o espetáculo foi doméstico, ruidoso e cotidiano. STF, Congresso e Executivo disputaram espaço, versão e microfone. Um país que parece viver num eterno conflito entre poderes, como se a normalidade institucional fosse sempre algo a ser adiado. O julgamento do golpe abriu caminho para a discussão sobre anistia, provando que, por aqui, passado e presente se misturam numa guerra de narrativas que pela conquista do Poder. E, como se não bastasse, vieram as notícias sobre benefícios e comportamentos suspeitos de ministros do Supremo, lembrando que a liturgia do cargo exige um comportamento que leve em conta a frase atribuída a Júlio Cesar após sua esposa, Pompéia, estar envolvida em um escândalo onde um homem se disfarçou para entrar em sua casa: “A mulher de César não basta ser honesta, tem que parecer honesta" significando que não basta apenas ser íntegro, é preciso parecer assim para a sociedade.
Em Natal, o ano teve ritmo próprio, como quase tudo por aqui. Um novo governo assumiu reclamando discretamente e nos corredores sobre um rombo nas contas recebidas, mas deu reajustes salariais, pagou a folha em dia, e festas com gastos milionários, apesar da choradeira protocolar sobre dívidas herdadas. Com controle absoluto do Legislativo garantiu tranquilidade política, ainda que à custa de pouco debate. E as obras deixadas pelo antecessor seguiram naquele estágio curioso entre o inacabado e o esquecido, virando parte da paisagem urbana antes de se tornarem entrega concreta. A cidade seguiu seu curso, entre promessas, tapumes e o calor de sempre.
Na política, o tabuleiro da sucessão fechou o ano sem desenho final, mas longe de estar parado. O nó dado pelo vice-governador Walter Alves embaralhou as cartas e redefiniu estratégias. O prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra, escolheu a arte do silêncio público enquanto trabalha nos bastidores para viabilizar uma chapa que já lidera as pesquisas. Do outro lado, Rogério Marinho e Álvaro Dias seguem cada um em seu espaço, cultivando diferenças que a prática política costuma tratar como provisórias. No fim, quase sempre, os caminhos se cruzam e as fotos se ajustam.
Nada disso é novo. Todo ano tem sua cota de conflitos, guerras, disputas políticas, escândalos e decepções. Assim como todo ano também guarda pequenos avanços, encontros inesperados e gestos que não rendem manchete. A diferença é que, com o tempo, a gente aprende a olhar para esse conjunto com menos espanto e um pouco mais de ironia.
Talvez seja isso que o fim do ano provoque de verdade. Não grandes conclusões, nem promessas solenes, mas uma dúvida simples, quase íntima. Enquanto acompanho guerras, disputas políticas, crises e sucessões indefinidas, sigo vivendo minha rotina, meus afetos, minhas pequenas preocupações. O mundo continua girando, barulhento e imperfeito, e eu sigo tentando acompanhar, às vezes com ironia, às vezes com cansaço.
No fim, não sei se passo pelo mundo ou se o mundo passa por mim. Só sei que ele passa, invariavelmente, sem pedir licença e sem respeitar o calendário. Eu sigo também, tentando entender as manchetes e a vida real.
Porque, quando dezembro voltar, a gente faz outro balanço. E segue.