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Cristãos, espíritas e supersticiosos

Se um pastor evangélico subir ao púlpito para pregar sobre reencarnação, provavelmente será acusado de heresia. Mas a ideia de voltar à Terra em uma nova vida não parece incomodar boa parte dos brasileiros. Embora quase 80% da população se declare católica ou evangélica, 37% acreditam na reencarnação e 68% afirmam crer na existência de espíritos.

Os números revelados por pesquisa do Instituto de Estudos da Religião (Iser) em parceria com a Quaest mostram que o Brasil segue cultivando uma religiosidade própria, menos preocupada com coerência doutrinária e mais aberta à mistura de crenças, práticas e tradições.

O fenômeno ajuda a explicar por que conceitos associados ao espiritismo, religiões afro-brasileiras e ao universo popular convivem sem grandes conflitos com a identidade cristã da maioria da população. O brasileiro pode frequentar a missa no domingo, acreditar em vida após a morte segundo a doutrina católica e, ao mesmo tempo, considerar plausível a reencarnação.

A pesquisa mostra que essa fluidez vai além das grandes questões teológicas. Sete em cada dez brasileiros afirmam já ter sentido que algo ruim iria acontecer antes do fato ocorrer. Quase 60% recorrem a folhas e ervas naturais para cuidar da saúde. Dois terços acreditam em mau-olhado e quase metade admite acreditar em feitiços ou trabalhos espirituais.

Mesmo entre os cristãos, as fronteiras são menos rígidas do que sugerem os discursos oficiais. A crença na reencarnação aparece entre 20% dos evangélicos e 40% dos católicos, embora as duas tradições rejeitem formalmente essa possibilidade.

A explicação está menos nos templos e mais na formação cultural brasileira. Ao longo de séculos, elementos do catolicismo popular, do espiritismo kardecista, das religiões afro-brasileiras e das crenças indígenas se misturaram, produzindo uma espiritualidade marcada pela coexistência de referências diversas.

Essa combinação aparece inclusive entre pessoas que se dizem sem religião. Embora não possuam vínculo formal com igrejas ou denominações, 88% afirmam ter fé e 64% acreditam no paraíso. Quase toda a população brasileira, 98%, declara acreditar em Deus.

Os dados também ajudam a entender o sucesso de narrativas religiosas baseadas em guerra espiritual. O medo de forças malignas continua disseminado na sociedade. Dois em cada três brasileiros acreditam na existência do demônio, enquanto 47% dizem acreditar em feitiços. Trata-se de um terreno fértil para discursos religiosos que associam problemas financeiros, familiares ou de saúde à ação de forças espirituais.

Fonte: Folha de S Paulo


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