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Céu agitado

Se você sente que voar ficou mais turbulento nos últimos anos, não é impressão sua — e os dados confirmam: os casos de turbulência severa estão aumentando em todo o mundo, inclusive no Brasil.

O pouso de emergência do voo da Air Europa em Natal (RN), em 1º de julho de 2024, ilustra de forma dramática a escalada da turbulência severa nos céus do Brasil. Naquele episódio, a aeronave que fazia o trajeto entre Madri e Montevidéu precisou alternar para Natal após uma intensa turbulência sobre o Atlântico. O impacto foi tão forte que fez passageiros “voarem” dentro da cabine, resultando em pelo menos 40 feridos — sete com lesões moderadas ou graves e dezenas com contusões leves e a aeronave, um Boeing 787-9 Dreamliner, teve inclusive compartimentos de bagagem danificados pela força dos solavancos.

Com as mudanças climáticas alterando padrões atmosféricos em alta altitude, cientistas e autoridades da aviação civil observam uma escalada preocupante no número e na intensidade das ocorrências. O fenômeno, antes raro e associado apenas a tempestades, tem se tornado mais frequente até mesmo em céus aparentemente limpos.

Relatos semelhantes começam a se multiplicar entre passageiros de voos que cruzam o Atlântico Sul ou atravessam o território brasileiro, especialmente em épocas de transição climática, como outono e primavera.

Segundo dados do Centro Integrado de Meteorologia Aeronáutica (CIMAER) e da Força Aérea Brasileira, o país registrou mais de 6.600 avisos de turbulência entre 2024 e meados de 2025 — um ritmo já acima das marcas de anos anteriores. Apenas entre janeiro e julho de 2024, foram mais de 1.200 avisos emitidos para todo o espaço aéreo brasileiro, número indicativo da intensificação do fenômeno e da complexidade meteorológica

Segundo o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA), o Brasil conta com sistemas meteorológicos avançados de monitoramento, mas mesmo eles nem sempre conseguem prever a turbulência de ar claro, que se forma sem nuvens visíveis. Rotas que ligam grandes capitais a destinos internacionais estão entre as mais afetadas devido à influência das correntes de jato, tempestades convectivas e, cada vez mais, à turbulência de ar claro, que não aparece nos radares.

A força invisível: turbulência de ar claro

Diferente da turbulência causada por tempestades ou montanhas (a chamada orográfica), a turbulência de ar claro ocorre em céu azul, gerada por variações abruptas no vento em altitudes de cruzeiro. Ela é quase impossível de detectar por radares convencionais e, por isso, representa o maior desafio para a segurança aérea atualmente.

Estudos apontam que esse tipo de turbulência deve se intensificar nas próximas décadas, impulsionado pelo aquecimento global. “O aumento da diferença de temperatura entre regiões ao norte e ao sul da corrente de jato está fortalecendo essa corrente, o que torna o ar mais instável”, explica o professor Paul Williams, cientista atmosférico da Universidade de Reading, no Reino Unido.

Números que assustam

Nos Estados Unidos, dados do National Transportation Safety Board (NTSB) indicam que desde 2009 houve pelo menos 207 ferimentos graves causados por turbulência, sendo 166 entre tripulantes — muitos deles fora dos assentos no momento do impacto. Em todo o mundo, estima-se que ocorram cerca de 5 mil episódios de turbulência severa ou pior por ano, entre mais de 35 milhões de voos.

A Organização da Aviação Civil Internacional (OACI) revelou em seu último relatório de segurança que quase 40% das lesões em passageiros registradas em 2023 foram causadas por turbulência.

No Brasil, embora não existam estatísticas públicas consolidadas, fontes do setor apontam que o número de relatórios sobre turbulência subiu ao menos 30% nos últimos cinco anos.

O fator climático

O elo entre turbulência e mudanças climáticas é cada vez mais claro. A atmosfera aquecida retém mais umidade, favorecendo a formação de tempestades intensas, com nuvens de grande porte e correntes verticais violentas — cenário perfeito para a turbulência convectiva.

“Além de mais frequentes, os episódios de turbulência estão mais imprevisíveis”, alerta o meteorologista Ricardo Augusto, da Climatempo. “Antes, os pilotos evitavam tempestades visíveis. Agora, mesmo em rotas aparentemente limpas, há risco de pancadas.”

Mudanças operacionais à vista

Companhias aéreas estão começando a reagir. Algumas já investem em softwares de previsão meteorológica mais detalhados e sistemas de detecção em tempo real. Outras optam por mudar rotas ou altitudes com mais frequência — o que, no entanto, gera aumento de consumo de combustível e atrasos.

A Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) destaca ainda que as aeronaves comerciais são projetadas para suportar turbulência severa. O problema não é estrutural, mas sim relacionado à segurança individual de quem está a bordo.

E os passageiros?

Para os passageiros, a principal recomendação é simples: use sempre o cinto de segurança, mesmo quando o aviso estiver desligado. Estudos mostram que a maioria das lesões ocorre porque as pessoas estavam soltas em seus assentos, indo ao banheiro ou levantando para pegar objetos no bagageiro.

 

Com informações da BBC


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