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Há alguma coisa no ar além dos caças no céu de Parnamirim

E não são aviões de carreira, como desconfiava o Barão de Itararé. Quem olha de fora pode achar que o movimento ali se resume ao ronco metálico das turbinas e à disciplina dos pousos e decolagens. Mas, sobre a Base Aérea de Natal, o céu guarda outra presença, mais antiga do que qualquer tecnologia e menos previsível do que qualquer plano de voo.

Tudo começou com um edital de licitação. Entre cifras de combustível e peças de reposição, a BANT quer comprar um novo aliado para suas operações: o Parabuteo unicinctus, popularmente conhecido como gavião-asa-de-telha.

O trabalho dele? Patrulhar o espaço com uma autoridade que ignora patentes. Enquanto lá embaixo homens calculam rotas e checam instrumentos, o gavião faz o que a evolução lhe ensinou há milênios. Sua missão é projetar o que os técnicos chamam de "medo psicológico". Para um urubu distraído ou um pombo persistente, o barulho de uma turbina é apenas ruído; mas a silhueta de um gavião recortada contra o sol de Natal é um veredito de retirada imediata.

Colisões entre aves e aeronaves, especialmente durante o pouso e a decolagem, representam um risco, podendo causar danos graves às turbinas e acidentes fatais.

É um cenário quase medieval operando no coração da modernidade. De um lado, o aço inoxidável das turbinas que desafiam a gravidade; do outro, a visão telescópica e o instinto que nenhum software de inteligência artificial conseguiu, até hoje, replicar. A Aeronáutica, em um gesto de inteligência suprema, reconheceu que para manter os pássaros de ferro no céu, precisava pedir licença aos donos legítimos das nuvens.

A Base Aérea, que já foi o Trampolim da Vitória na Segunda Guerra Mundial, com aviões saindo rumo ao desconhecido para proteger o Atlântico Sul contra o avanço do nazifascismo, hoje lança um impulso diferente. O gavião não precisa de pista para decolar, nem de autorização da torre para voltar. Ele simplesmente se lança. Graças a um rádio minúsculo ou um GPS acoplado à perna, o falcoeiro o acompanha à distância, mas é a barriga e a confiança que o trazem de volta ao punho.

É da natureza dos gaviões-asa-de-telha fazer essa escolha. No fim das contas, diante de radares e sensores de última geração, é esse vigia com o instinto lapidado pelo vento — e nenhuma inteligência artificial — que garante aos pilotos o direito de cruzar o azul com segurança.

Um vigia sem farda.

Um silêncio com asas.


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